15 setembro, 2010

A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO PRAZER


                                                                 Ticiano, Vénus de Urbino

Há, nesta notícia, uma enorme promiscuidade entre coisas completamente distintas. Ser contra o aborto, a favor da liberalização do uso e porte  de arma ou fiscalmente conservador, são questões políticas. Porém, relevar o facto de um político considerar a masturbação um pecado é, politicamente, totalmente irrelevante.
As críticas da esquerda relativamente a uma sensibilidade moral conservadora são absolutamente doentias, tão doentias como muitas vezes o que criticam como doentio.
Cada ser humano é livre de exprimir a sua sexualidade da maneira que bem entender, desde que isso não prejudique terceiros. Porém, dizer aos outros como deve ser a sexualidade poderá, à partida, ser extremamente perigoso. Na mesma linha dos efeitos perversos da liberdade positiva de que fala Isaiah Berlin em oposição à liberdade negativa.
Quando a esquerda, criticamente, e com base na crença de uma legitimidade "técnica e científica", realça num politico a sua moral sexual está, de certo modo, a pressupor igualmente uma moral sexual. E é precisamente aqui que podemos encontrar efeitos perversos terríveis, muitas vezes tão obsessivos e doentios como as obsessões e aspectos doentios que tantas vezes criticam.
Como alguém diz num comentário à notícia, critiquem a senhora por aquilo que merece a pena ser criticado. Ao relevarem tais aspectos, a esquerda, e fala da esquerda dita moderna, só vem mostrar que ainda não se libertou de certos fanatismos uniformizadores, universalistas e "científicos" que vêm da Revolução Francesa e do Bolchevismo (socialismo científico), e que a biopolítica tanto pode ser um domínio da direita como da esquerda.

9 comentários:

josé manuel chorão disse...

Vou fazer uma pergunta ingénua: a esquerda ainda existe? É que não a tenho visto, ultimamente. Já se terão mudado todos?
Quando alguem de esquerda critica a moral (sexual ou de outro teor) de outra pessoa está a abdicar, implicitamente, dessa condição de esquerda. Digo eu...

jrd disse...

Quando decide criticar a direita protofascista, a esquerda revela quase sempre uma grande falta de chá...

Anónimo disse...

Caro Professor,
Tem um jogo de computador em que a molecada aprende a ser mafioso (GTA), um outro tem uma fase em que 5 caras com metralhadoras matam todo mundo indiscriminadamente no lobby de um aeroporto. Lady Gaga recebeu um prêmio vestida de carne, um francês lançou um vinho chamado "Vinho de Merda" (talvez em francês fique melhor), um jogador famoso matou a amante e deu para os cachorros comerem, todas as letras de Amy Winehouse falam de consumo de drogas, traficantes, bebedeira e todas essas coisas edificantes. Bom, dá até para lembrar o abominável Nietzsche: "O que é o niilismo? É quando todos os valores se depreciam, faltam os fins, não existe resposta para pergunta "para que?". Sei lá, talvez essa questão de "liberdade negativa" de Sir Isaiah Berlin deva ser repensada, antes que a casa caia... Ok, quem vigiará os guardas? Hoje se proíbe a cantora drogada, amanhã o José Saramago. Enquanto se continua discutindo essas questões a entropia aumenta. A unica esperança é que a Profecia Asteca esteja certa e o mundo acabe em 2012, se é que não acaba antes.

Atenciosamente!

José Ricardo Costa disse...

O mundo não acaba nada em 2012. O mundo não é coisa que acabe assim às primeiras, é suficientemente resistente para aguentar as insânias e parvoíces dos seres humanos.
De qualquer modo, penso que está a misturar coisas diferentes.
Eu sou a favor da censura. Se há medicamentos que só podem ser vendidos mediante uma receita médica devido aos seus possíveis efeitos negativos na saúde, ora, havendo letras de músicas, jogos ou filmes que possam ter efeitos perniciosos nos comportamentos das pessoas, sobretudo jovens, a exibição e comercialização de tais conteúdos deverá ser controlada, condicionada. Isto implica naturalmente um modelo de de normalidade, felicidade, equilíbrio e bem-estar. Que até certo ponto é consensual. É consensual pensar que é mais saudável gastar dinheiro em visitas a museus ou restaurantes do que em droga para injectar na veia.
Aliás, o própio Isaiah Berlin não tinha uma visão completamente negativa da liberdade positiva. Do que ele fala é dos possíveis efeitos perversos da liberdade positiva, do aproveitamente político da liberdade positiva.
Mas o que eu escrevi no post é diferente. Tem que ver com a liberdade que cada um deve ter relativamente ao seu próprio corpo. Eu posso considerar uma aberração, uma patologia, um indivíduo gostar de ser chicoteado. Mas quem sou eu para o proibir de ser chicoteado se isso lhe dá prazer? Eu poderei pensar que a senhora da notícia é uma idiota chapada. Mas que importância tem num político o que ela pensa sobre a masturbação, ou se gosta mais de mousse de chocolate do que de arroz doce? Interessa, sim, saber o que ele pensa sobre o aborto porque existem leis sobre o aborto ou o que pensa sobre a fiscalidade pois irá marcar a agenda económica e social do governo. Agora, pegar no facto de uma pessoa acreditar que por casar virgem chega mais facilmente ao céu para a criticar politicamente, soa-me a excesso de moralismo, o tal moralismo que a esquerda sempre criticou na direita conservadora.
Abraço,
JR

Kamaroonis disse...

Caro José Ricardo Costa,

Espero não estar a ser deselegante ao usar as suas palavras para o meu comentário, não tenho com isto nenhuma intenção além de tentar ilustrar o meu ponto de vista sobre este assunto. Aliás, hesitei um pouco antes de começar a escrever, bom, vamos a isto!
Quando diz, e passo a citá-lo, "Eu posso considerar uma aberração, uma patologia, um indivíduo gostar de ser chicoteado. Mas quem sou eu para o proibir de ser chicoteado se isso lhe dá prazer?" está a tocar no cerne da questão. A dita senhora pertence a um grupo de pessoas que quando fala destas coisas, não o faz como "esta é a minha opinião, pensa nisso, argumenta comigo e segue-a se quiseres" mas antes como "se eu pudesse faria com que tu fizesses o que eu digo, independentemente de o quereres ou não"...
Reconheço que a notícia devia ser jornalística no sentido de falar de factos politicamente relevantes, mas é jornalística no sentido de nos dizer "vejam lá na extravagância desta senhora, que pode vir a ser senadora dos US of A". Nesse sentido é mais "gozona" que propriamente moralista, penso eu; e desta forma é, na realidade, mais mesquinha e parva que outra coisa - está ao nível da opinião claramente parva (desculpe lá) da dita senhora...

Eu julgo ter compreendido o espirito "Berliniano" do seu post, mas estes "republicanos" tiram-me do sério! ;)

Peço desculpa pelo excessivamente palavroso comentário...

Um abraço,
José Alberto

José Ricardo Costa disse...

Viva! Qual deselegância, essa agora, mande sempre, meu caro!

Sim, claro, que a senhora é parva nas horas, toda a gente percebe, na linha dos seus republicaníssimos "compagnons de route". A questão é que ela nunca irá legislar sobre tal matéria como poderá legislar a respeito do aborto. Talvez a intenção do jornal (de esquerda) seja mesmo a de apenas realçar o exotismo ideológico da senhora. A mim, o que me fez alguma comichão foi o modo promíscuo como foram enumeradas as referências a seu respeito, misturando o político e o privado. E eu, muito berliniamente, não me quero esquecer que, no mundo, há coisas que começam por ser simples gracejos e comédia para se tornarem, anos depois, tragédia. À esquerda e à direita. Para além disso, com a velhice, fui-me tornando cada vez mais tolerante relativamente às diferenças por muito exóticas que sejam, desde que se fiquem apenas pelo domínio da vida privada.

Abraço,

JR

Anónimo disse...

Prezado Professor:
Discordo frontalmente do Sr. Saber que ela gosta de armas, é contra o aborto e considera que a masturbação é um pecado, me parece extremamente relevante, porque nesse caso, revela oportunismo (quer estar bem com essas fatias do eleitorado – veja que ela pegou uma grana da associação nacional de rifles) ou uma brutal confusão mental. Todos os dois aspectos a desqualificam como uma boa legisladora. Eu, que vivo numa cidade que tem a população do seu país, obviamente não conheço pessoalmente as pessoas que postulam o meu voto. Qualquer informação que possa saber sobre esses desconhecidos – até se eles gostam de comer palmito, porque neste caso não preservam o meio ambiente – é relevante para mim. Dado ao total desconhecimento da maioria esmagadora do eleitorado sobre os postulantes, tudo interessa para que possamos formar uma opinião menos simplista sobre eles. Noves fora, que eles pagam um monte de especialistas para fabricar uma imagem positiva para o eleitorado. Aliás, fazemos isso o tempo todo na nossa vida pessoal. Julgamos as pessoas sobre uma gama incríveis de questões que parecem irrelevantes. E como poderia ser diferente, já que não podemos ler suas mentes? Por exemplo, o Sr. está me julgando agora, baseado no tamanho obsceno que está tomando essa minha garatuja... Se a pessoa quer manter sua privacidade, fique no limite do privado. Político tem poder demais. Não dá para facilitar com essa gente. Que, como se sabe, estão sempre traindo a confiança do ingênuo eleitor.

Grato pela paciência!

José Ricardo Costa disse...

Bem, mas criticar um político por ser oportunista é absolutamente redudante. Não se pode fazer política sem oportunismo. É um suicídio total. Seja através de ardis ideológicos ou morais para conquistar franjas do eleitorado, à esquerda ou à direita.
Se eu for ecologista não é irrelevante saber que um candidato usa um casaco com a pele de um animal em vias de extinção. Ok, é um casaco, é o gosto pessoal dele mas que acaba por colidir com aspectos de natureza política. Se for proibido caçar aquele animal ele não pode usar (pelo menos em público) aquele casaco.
Agora o que a senhora pensa sobre aspectos relacionados com o corpo, com a exclusiva vida privada é completamente diferente. Claro que ela pretende com isso obter uma vantagem eleitoral, seduzir o eleitorado mais reaccionário. Ao dizê-lo publicamente está ela mesmo a confundir as coisas, o público e o privado. Mas ao relevar-se criticamente essa sua posição, o que nela não passa de um simples ardil eleitoral passa a tornar-se moral. Ou seja, a crítica à sua posição moral, absurda politicamente, acaba por padecer da mesma enfermidade, uma posição igualmente moral e politicamente absurda. Fica tudo ao mesmo nível.
Abraço

Anónimo disse...

Caro Professor:
Por sua bela réplica, em puro português de além mar, o senhor conquistou a merecida dupla nacionalidade! Agora terá que votar, já que o voto entre nós é obrigatório (procure o consulado), em Dilma, Serra, Marina, Plínio Sampaio ou nulo. São os ônus da cidadania...
Para ficar melhor, bastaria o Sr., como eu, torcer pelo glorioso Clube de Regatas Vasco da Gama!
Saudações fraternas!