05 setembro, 2010

GRISÓSTOMO E MARCELA


                                                        Jean-François Millet, Pastora com o seu Rebanho

Admito que o que vou dizer seja uma enorme barbaridade mas, ainda assim, arrisco: o grande texto céptico do Ocidente depois dos Esboços Pirrónicos, de Sexto Empírico (século III D.C.), foi escrito por um espanhol chamado Miguel de Cervantes e chama-se D. Quixote de la Mancha.
Tudo nele é volátil, posto em causa. Nós lemos o Quixote e vemos o mundo desabar à frente dos nossos olhos. O que antes era certeza passa a incerteza, o que parecia evidente passa a duvidoso. Todas as classes sociais são criticadas, a moral, as convenções, o senso comum, as tradições, os ideais, os ardis teológicos.

Ora bem, existem dentro dessa grande história que é o Quixote, várias histórias. Uma delas é a do infeliz amor de Grisóstomo por Marcela.
Marcela era filha de um rico lavrador e da mais honrada das mulheres, uma bela mulher mas igualmente virtuosa e amiga dos pobres e que irá encontrar uma morte prematura durante o parto de Marcela. O pai, por sua vez, morre de desgosto. Marcela, jovem e rica, graças à fortuna dos pais, vai ser criada por um tio sacerdote.
Marcela é de uma enorme beleza. Os pretendentes são mais do que muitos mas Marcela, sentindo-se ainda imatura, não se interessa por nenhum.
Um dia, sem ninguém esperar, a bela, jovem e rica Marcela decide tornar-se pastora. Passando os seus dias no campo, ao ar livre, de imediato jovens fidalgos, estudantes, ricos mancebos, loucamente apaixonados, se vestem de pastores, indo para o campo em busca das boas graças de Marcela. Um desses jovens, estudante e poeta, era Grisóstomo.
Mas Marcela não se interessava por nenhum. Grisóstomo, entretanto, morre de amor. E deixa escrito um belo poema no qual desabafa as suas mágoas, queixando-se ainda da crueldade, da insensibilidade, da arrogância, da frieza de Marcela. O seu último desejo é ser enterrado no lugar onde pela primeira vez viu Marcela. O poema é lido perante várias pessoas, sendo uma delas D. Quixote.
Neste momento, a fama de Marcela não poderia ser pior: uma mulher desumana; um feroz basilisco; a sua crueldade é comparável à de Nero.
Ora bem, estão as personagens nisto quando, entretanto, aparece a própria Marcela. E vem precisamente para se defender. Melhor do que o meu resumo serão as próprias palavras da ultrajada pastora:

 "Fez-me o céu, conforme vós dizeis, formosa, e de tal maneira que, incapazes de outra coisa, a que me ameis vos leva a minha formosura, e pelo amor que me mostrais, dizeis e até quereis que eu seja obrigada a amar-vos. Reconheço, com a natural inteligência que Deus me deu, que tudo o que é formoso é merecedor de ser amado; mas não consigo compreender que, por ser amado, seja obrigado o que é amado por ser formoso a amar quem o ama. E além disto, poderia acontecer que aquele que ama o formoso fosse feio, e sendo o feio digno de ser desdenhado, custa muito dizer: «Quero-te porque és formosa; tens de amar-me, embora eu seja feio.» Mas, ainda que se correspondam as formosuras, não por isso têm de portar-se de igual modo os desejos, pois nem todas as formosuras despertam o amor: pois algumas dão prazer aos olhos mas não vencem a vontade; que se todas as belezas enamorassem e vencessem, andariam as vontades perturbadas e transviadas, sem saberem em quem deviam fixar-se; porque, sendo infinitos os sujeitos formosos, infinitos teriam de ser os desejos. E, segundo tenho ouvido dizer, o verdadeiro amor não se reparte e tem de ser voluntário e não forçado. Sendo assim, como creio que é, - porque quereis que eu renda a minha vontade à força, obrigada somente por me dizerdes que me quereis bem?
(...)
Que se Grisóstomo foi morto pela sua impaciência e ousado desejo, - porque se há-de culpar o meu honesto procedimento e o meu recato? (...) Eu, como sabeis, tenho a minha riqueza e não cobiço as alheias; sou de livre condição e não gosto de ser mandada pelos outros; não amo nem detesto ninguém. Não iludo este nem pretendo aquele; não ando a brincar com um nem me entretenho com outro. A conversa honesta das zagalas destas aldeias e o cuidar das minhas cabras me entretêm. Os meus desejos têm por limite estas montanhas, e se daqui saem é a contemplar a formosura do céu, passos com que a alma caminha para a sua morada primeira."*

Dito isto, Marcela vira as costas e vai embora, "deixando admirados todos os que ali estavam, tanto pela sua eloquência como pela sua formosura". D. Quixote, esse, reavivou de novo a sua loucura e revelou logo a sua intenção de, enquanto cavaleiro andante, proteger a formosa Marcela, completamente ilibada do seu suposto crime, merecendo por isso ser honrada e estimada por todos os homens.
Uma enorme reviravolta, portanto. No fundo, uma daquelas reviravoltas em que é pródiga a história do pensamento mas também a própria vida.

*Tradução de José Bento, Relógio de Água

1 comentário:

jrd disse...

Muito interessante.
Uma (revira)volta digna de um moinho de vento (só podia).

Nota: Aquela da sua relação com a dúvida constitui um dos melhores comentários que o bth tem recebido.