27 setembro, 2010

A FLOR E O ESTRUME

                                                                        Helmut Newton

Regresso mais uma vez ao poder das palavras e dos conceitos, na sequência do que já havia escrito neste post. E, mais uma vez, ao romance Na Praia de Chesil.
Embora haja um "antes da praia de Chesil" e um "depois da praia de Chesil", é mesmo na praia de Chesil que vamos encontrar o ponto nevrálgico de todo o romance: o local onde Florence e Edward, ambos virgens, passam a noite de núpcias. Noite sexualmente fracassada, por culpa de Florence.
O romance começa com o jantar no quarto do hotel. E ficamos desde logo a saber da enorme ansiedade de Florence perante a noite que se aproxima. E da sua sensação de repugnância perante a ideia de um contacto sexual mais ousado e de ser penetrada. Embora gostasse de se imaginar grávida e de ter bebés, a ideia de os fazer causa-lhe enormes constrangimentos. Florence nem sequer é capaz de beijar com a língua. E apenas uma vez Edward lhe tocara no peito.
Depois disto, iremos retroceder no tempo. Vamos conhecer pormenores do seu namoro, das suas carreiras académicas, dos respectivos ambientes familiares. Até que voltamos finalmente à noite de núpcias e ao fracasso sexual de Florence e Edward. Descobrimos então que Florence é frígida, simplesmente frígida. E é preciso chegar praticamente ao fim do romance para termos essa chave, essa palavra que explica a praia de Chesil. Uma palavra que altera por completo a nossa percepção da sua relação, o modo como Edward percepciona Florence assim como a percepção desta acerca de si própria. Nós, no fundo, já o sabíamos. Ele já o sabia, ela já o sabia. Mas falta-nos a palavra mágica, a palavra cuja invocação altera por completo a nossa visão das coisas.
O que me interessa agora é o conflito que surge naturalmente entre uma visão literária, estética, romanesca e uma visão conceptual. Quando eu era jovem, fui levado até casa de uma amiga de uma amiga. Uma casa enorme, sumptuosa, cheia de história, de antiguidades. E fiquei a saber que a mãe da amiga da minha amiga era uma pessoa que, devido a problemas mentais, raramente saía do quarto. Fiquei de imediato fascinado com a situação. Com a ideia de estar dentro de uma casa daquelas, com uma mulher louca fechada no quarto. Não seria propriamente Neuschwanstein mas não andaria longe disso. A ideia de uma mulher louca, na minha jovem cabeça, não passava de uma pura abstracção literária ou cinematográfica e não de um simples conceito técnico (neurose, psicose, esquizofrenia,etc). Senti-me dentro de um filme de Visconti (já tinha visto filmes de Visconti) ou dentro de um qualquer romance novecentista. Hoje, porém, a situação seria diferente. Eu teria perguntado de que doença padecia a senhora e, de imediato, a consciência da doença através do nome da doença, alteraria a minha visão não só dela como de todo o contexto.
Pensemos, por exemplo, num filme de Ingmar Bergman. No conflito entre mãe e filha em Sonata de Outono, no conflito entre pai e filho em Saraband, no conflito entre marido e mulher em Lágrimas e Suspiros. O que se passa dentro de nós enquanto receptores dessas obras? Temos uma experiência estética que se encontra envolvida num contexto feito de luz, sombras, cores. De música. De uma narrativa. De diálogos e de silêncios. De  olhares. De expressões.
Se, porém, deitarmos aquelas personagens num divã, rapidamente começamos a colar-lhes etiquetas na pele e a construir a nossa percepção a partir de palavras que naturalmente adquirem um valor conceptual. Em suma, deixamos de ter uma relação simplesmente estética ou até mesmo compreensiva, embora uma compreensão intuitiva, espontânea, "ingénua", para passarmos a ter uma dissecação conceptual. No que se torna Luís II da Baviera deitado num divã?
Tal processo tem um valor funcional enorme. A partir do momento em que possuímos a palavra, passamos a dominar o fenómeno. Como se de repente desaparecesse o manto de nuvens que o envolve e surgisse aos nossos olhos sem segredos, sem mistérios, sem aquela subtil película que o envolve e que tanto o revela como o oculta. Ou seja, com a palavra, com o conceito, a desocultação passa a ser total.
Não por acaso, depois da conversa entre Florence e Edward na qual a palavra "frigidez" é invocada, é-nos contado o resto da vida de Edward em cinco páginas apenas enquanto a de Florence simplesmente deixou de ser contada. 120 páginas para contar uma história antes da palavra mágica surgir e que poderiam ser bem mais se teimasse em não surgir. A palavra surge e a história acaba. A película desfez-se. Acenderam-se as luzes da sala e, de repente, descobrimos que estamos perante a vida real. Uma chatice, a vida real. 

6 comentários:

jrd disse...

Luis II deitado num divã!?...
Não seria ele certamente a conseguir resolver a frigidez de Florence.
Talvez por isso o tenham suicidado no Lago Starnberg.

estela disse...

li o livro o ano passado.
e o que me ficou foi um enorme mal entendido. entre ambos. por culpa de ambos.
quando li "por culpa de florence" (logo nas primeiras linhas)fiquei desconfiada. e agora, tendo lido o post todo, mais desconfiada estou.
tenho de ir ver em que página está a dita palavra mágica.
suponho que uma mulher lê isto de outra maneira - como um homem o escreverá também ;)

josé manuel chorão disse...

Não sei.
Se a palavra desvenda ou oculta. Admito que nos dá a sensação de possuir o que designa; mas será essa posse real ou ilusória?
A frigidez será, de facto, frigidez ou a palavra reduz uma realidade mais complexa a um "redondo vocábulo" que nos satisfaz a curiosidade? Que nos cria a ilusão de compreender e nos possibilita seguir em frente (teremos compreendido?)

Ana Paula Sena disse...

Muito interessante. Até a vida real.

E uma grande chatice, de facto.

Esta é uma conclusão que abre uma enorme porta...

João Delicado sj disse...

De facto, é o problema central da filosofia da linguagem: a palavra e a realidade; o conceito e a forma...

Acho que somos uma espécie de caçadores de realidade que não ficamos saciados enquanto não capturamos tudo o que nos envolve - dando nomes às coisas; mas assim que capturamos, perdemos interesse por esses elementos da realidade e partimos à procura de outros.

Talvez o segredo esteja em aceitar com humildade que "há vida para além das palavras".

Anónimo disse...

Não há mulheres frígidas. Há é homens que não sabem para que serve, em certos momentos, a língua :-)

Madox