25 setembro, 2010

DOMINGO À TARDE


Há dias, uma mulher alemã cometeu um homicídio em massa. Mata o filho de 5 anos de idade com um saco de plástico. Depois, abate o ex-companheiro com dois tiros. De seguida, dirige-se para um hospital no outro lado da rua, entra no serviço de ginecologia, mata um enfermeiro com vários tiros e facadas e tenta depois alvejar os agentes policiais. 3 mortos e 18 feridos. Parece que toda esta explosão se deveu a um problema com a custódia da criança.
É sem dúvida muito interessante o facto de, no hospital, se ter dirigido ao serviço de ginecologia e não a um outro qualquer. Houve logo quem, pensando no motivo da chacina, vislumbrasse um forte simbolismo: descarregar toda a sua ira num lugar associado ao aparelho reprodutor feminino, gravidez, partos, crianças.
Porém, no PÚBLICO, diz Cristina Soeiro, investigadora do Instituto Superior de Polícia Judiciária e Ciências Criminais, que a coisa não é assim tão óbvia. Não tem que existir esse simbolismo. Ela poderia ter ido àquele serviço apenas porque lhe é familiar. E para desmistificar a ideia de que tem que haver uma racionalidade simbólica em certos comportamentos, dá o exemplo de um agressor que atacava sistematicamente ao domingo à tarde. Quando ela lhe perguntou porquê, respondeu simplesmente que era o dia em que não trabalhava e tinha mais tempo disponível.
Podemos encontrar aqui uma boa síntese de um velho debate filosófico. Há quem só consiga viver num mundo de acordo com padrões, modelos, esquemas racionais. Daí que, perante uma maçã que cai do ramo, um físico veja uma lei da natureza matematicamente traduzida enquanto uma pessoa comum apenas uma maçã que caiu. Do mesmo modo, um psicólogo tenderá a ver a ida daquela mulher para o serviço de ginecologia com base numa relação causal que confere uma racionalidade simbólica ao seu acto. Neste caso, não dentro das leis da natureza (maçã) mas de umas putativas leis da mente humana.
Os cientistas e filósofos racionalistas não gostam de acasos, de contingências. Não só nas ciências experimentais mas também nas ciências sociais e humanas: na história, na sociologia, na antropologia. A sua obsessão pela cientificidade do seu trabalho leva-os muitas vezes a enormes delírios epistemológicos.
Mas mesmo nas ciências experimentais podemos colocar algumas questões. Por exemplo, esta. Existem as leis da física. Leis universais e necessárias. Certo. A partir do momento em que a maçã se solta do ramo não fica numa situação em que possa ou não cair. Tem que cair.
Mas será que as leis da natureza teriam que ser mesmo estas? Não podiam ser outras? E se no processo que deu origem à Terra tivesse havido uma outra conjugação de fenómenos? A queda de um corpo na Lua é diferente da queda de um corpo na Terra. Nós próprios, seres humanos, temos dois braços e o corpo revestido de pele. Mas se a nossa evolução tivesse sido outra poderíamos ter vários membros e o corpo revestido de escamas. Porque não? Por que razão o que existe teria mesmo que existir?
Daí eu ter gostado bastante da resposta da investigadora. Há coisas que acontecem simplesmente porque sim. Tentar escavar mais fundo para encontrar uma outra ordem de razões não passa de um exercício que tem tanto de ilusório como de inútil.

5 comentários:

estela disse...

talvez seja apenas uma questão de informação. de facto a mulher a que te referes tinha tido um aborto naquela mesma secção de ginecologia há anos.
o interessante é que não muda em nada o que escreves ;)

josé manuel chorão disse...

Felix qui potuit rerum cognoscere causas
(ou, em trad.livre, Feliz o que conhece a causa das coisas).

É o medo que nos faz procurar ver uma razão onde não existe razão nenhuma; o medo de que o Universo possa funcionar de modo que desconhecemos e, portanto, nos assusta; vai daí, inventamos: leis que expliquem tudo, deuses inexistentes; a seguir, podemos dormir descansados e acreditar que amanhã o Sol voltará a nascer.

Hanna disse...

Concordo com José Manuel, embora considere que o universo não funcione de acordo consigo mesmo, mas a partir de energias que partem da mais poderosa fonte de construção de realidades, que é o nosso pensamento. As energias mentais provocam as ações e atitudes que teremos no cotidiano. Desta forma, mobilizamos (ou não) as reações naturais do universo. Alguns gênios são tão distraídos - ou seja, livre de conceitos pré-estabelecidos - que conseguem perceber a causa de algumas coisas. A maçã não cai da mesma forma para todos. Abraços! Adorei o texto.
Hanna

José Ricardo Costa disse...

Hanna, um abraço "para você"!
JR

addiragram disse...

Tentar compreender terá uma única finalidade, a de estudar a fundo estes casos para poder antecipar e prevenir outras situações. E a verdade é que em Saúde Mental muitas vezes se escamoteiam dados, que parecem menores, e mais tarde se vêm a revelar trágicos.
Quanto ao simbolismo,ele, na maior parte dos casos não tem uma evidência óbvia, ele é bem complexo e oculto. Depois ainda, nestas patologias graves a capacidade de simbolizar não existe, caso contrário,os crimes não teriam acontecido.