23 setembro, 2010

A BATERIA



"Quando sugeriu que ela no fundo não «apanhava» o rock and roll, não havendo razão para continuar a tentar, Florence admitiu que o que não suportava era a bateria. Quando as melodias eram tão elementares, a maioria em simples compasso quaternário, porquê aquele troar, martelar e retumbar incessante para manter o ritmo? Que sentido fazia, quando já havia uma guitarra e muitas vezes um piano a marcar o ritmo? Se os músicos precisavam de ouvir as batidas, porque não arranjavam um metrómono? E se o quarteto Ennismore arranjasse um baterista? Ele beijou-a e disse-lhe que em toda a civilização ocidental não havia pessoa mais convencional do que ela.
-Mas tu amas-me - disse ela.
- É por isso que te amo". Ian McEwan, Na Praia de Chesil

Florence e Edward são namorados em 1961. Ele é um jovem estudante normal que gosta de rock and roll e de beber no pub. Ela é violinista num quarteto de cordas. Uma perfeccionista que encara o seu trabalho com um elevado sentido de responsabilidade e fleuma, quase um sacerdócio. Entretanto, ela consegue levá-lo a gostar de um quinteto de Mozart tocada pelo seu quarteto, ao qual se juntou uma jovem violinista. Isso deixou-a muito feliz. E a Edward também. Ele, desejando reciprocidade, leva-a para a casa e dá-lhe a ouvir o Roll over Beeethoven, de Chuck Berry. O texto acima vem na sequência dessa audição.
Acho muito interessante a importância da bateria como claro sinal do seu afastamento. Mais importante do que parece à primeira vista. Vejamos. Ela tem razão. O rock, comparado com Haydn, Mozart, Beethoven ou Schubert, é uma música elementar. Para quê, então, uma bateria para marcar o ritmo numa música já intrinsecamente ritmada? Florence não consegue entender isso. Só quem gosta de rock consegue entender a importância daquele "troar", daquele "martelar", daquele "retumbar" incessante para marcar o ritmo. E até mais do que entender: a sentir a sua inevitabilidade. A bateria, aquele troar, martelar, retumbar, faz parte da essência do Rock. É o sal do Rock. Tirar a bateria ao Rock é como tirar os enchidos ao cozido à portuguesa.
Eles amam-se, é verdade. Chegam a casar. A acção central do romance é a sua noite de núpcias, na praia. Mas aquela bateria divide claramente dois mundos. Dois mundos com quadros mentais, emocionais e estéticos completamente distintos.
Ele pode dizer-lhe que a ama pela sua falta de convencionalidade. E até é possível que sim. Mas uma coisa é amar outra coisa é alimentar o amor. Florence e Edward, como disse chegaram a casar. Mas num casamento em que um deles está centrado no rigor formal da melodia de um quarteto de cordas, enquanto o outro ouve o incessante troar, martelar e retumbar de uma bateria, qualquer coisa nos diz que a noite de núpcias, na praia de Chesil, não irá correr bem.

4 comentários:

josé manuel chorão disse...

Pois é, tens razão: uma coisa é amar, outra muito diferente alimentar o amor. Amar não é garantia de continuidade do amor.O mito do amor eterno posto em causa...
Mas nada de ir espreitar ao fim do livro,ok?

Shadow One disse...

I've got blisters on me fingers!!!

jrd disse...

Este blogue trata a linguagem metafórica como poucos.
Notável. Parabéns!

A música -dita- clássica coexiste perfeitamente com o rock and roll, mas só até aos 'encores'.
Digo eu que também tenho direito a uma metáfora e, confesso, não sou um grande melómano, apesar de postar música todos os sábados.
bfs

José Ricardo Costa disse...

Caro jrd, bom fds também para si e venham de lá esses shorts and sharps.