10 setembro, 2010

AS CORES DA HISTÓRIA

Há dias, por acaso, fui dar com este desenho de Munch


Mal o vi, comecei de imediato a divagar a respeito do significado da sua cor azulada. Sendo o pintor que é, o azul, aqui, teria naturalmente que adquirir um significado dramático: uma cor fria associada à morte, tristeza, angústia. Dois amantes abraçados mas um abraço que, por causa do azul, permite antecipar qualquer coisa de trágico ou profundamente triste.

Entretanto, depois, fui dar com esta versão


Como se vê, o azul desapareceu, ficando então sem saber qual das duas imagens é a verdadeira, qual reproduz fielmente o original. Fui, por isso, pesquisar, tendo descoberto que a versão correcta é mesmo esta última. Depois disto, a minha divagação a respeito do azul desabou por completo. Ou seja, fui levado a pensar coisas que nada tinham que ver com o verdadeiro objecto. Claro que o desenho é o mesmo. O casal é o mesmo, a janela é a mesma, o cortinado é o mesmo. Mas o azul não está lá e eu vi o azul. E, tendo visto o azul, vi mais do que a própria realidade, na sua objectividade, me permitiria ver.

Entretanto, dias depois, vi aqui uma interessante análise deste quadro de Vanessa Bell (irmã de Virginia Woolf)


 

A mulher retratada, Mary St John Hutchinson, era amante do marido da pintora, o filósofo Clive Bell. De acordo com a análise feita, apesar de Vanessa e Clive, como bons "Bloomsburies", terem uma vida sexualmente livre, haveria da parte da pintora um forte desejo de achincalhar a retratada, como se usasse o retrato para uma pequena vingança. E explica-o através das horríveis cores usadas no quadro, mais concretamente, a combinação do verde com o lilás.

Acontece que, andando eu na busca de mais informação a respeito desta história, fui dar com esta imagem


Como se pode ver, desapareceu o verde, desapareceu o lilás.
Imaginemos uma pessoa que, ao longo da sua vida, tivesse apenas acesso a esta segunda reprodução do quadro. E agora imaginemos uma outra que só tivesse acesso ao texto em que se analisa a intenção de achicalhar a retratada através da combinação do verde com o lilás. E, agora, peço ainda para imaginar o seguinte. Que esta segunda reprodução e o referido texto surgirão 200 anos depois, sendo os únicos dados existentes a respeito do quadro. Nada mais. Ora, como iremos nós interpretar a "coisa real"? Como iremos descodificar este objecto, dispondo de dados absolutamente contraditórios?
Ora, julgo ser isto que acontece muitas vezes na História. A História é feita a partir de interpretações, mas interpretações que já são feitas a partir de outras interpretações que, por sua vez, já se baseiam noutras interepretações. E, muitas vezes, contraditórias.
Vejamos, por exemplo, o cristianismo. Várias pessoas viram Cristo, conviveram com Cristo, foram contemporâneas de Cristo. Ora, o que temos nós, hoje, a respeito de Cristo? Meras interpretações e interpretações de interpretações. E interpretações contraditórias. Umas verdadeiras, outras falsas, outras assim-assim. O que temos hoje não é o cristianismo mas o que foi sendo interpretado a respeito do cristianismo, como um palimpsesto no qual a história é permanentemente reescrita. E quem diz o cristianismo diz uma revolução, uma crise, uma guerra.
Os senhores historiadores que me perdoem. Eu sei que muitos desejam ver a sua ciência como se de Química ou Física se tratasse. Eu não acredito nisso. Ok, há os números, os gráficos, essas coisas todas que fascinam os tecnocratas do passado. Mas os números valem o que valem. Ou seja, pouco. Para mim, a História não passa mesmo de ficção. E é por isso que eu gosto muito dela.

9 comentários:

josé manuel chorão disse...

"Os meus olhos são uns olhos
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros, com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores
(De tudo o mesmo se diz)
(...)"
António Gedeão
(As minhas desculpas por alguma imprecisão, devida a não ter encontrado o poema e estar a citar de (má) memória...)

Anónimo disse...

A vingança é um retrato que se serve, quer dizer, que se pinta a verde e roxo.

Ana Paula Sena disse...

Gostei muito deste post.

É realmente fantástico como a utilização (e a escolha) das cores pode mudar tudo. Eu, por ex., gostei muito daquele azul, precisamente pela atmosfera dramática que introduz no quadro.

Pode ser, de facto, muito fácil forjar a história. Caminhar pelos seus labirintos e meandros, em busca de um (im)possível conhecimento do passado... sem garantias absolutas... É por isso também que eu gosto tanto dela.

Margarida disse...

...há aí qualquer coisa mal resolvida com a História!
Tema recorrente, roçando a birra, um vago amuo de pé batido e braços cruzados, beicinho e marcação no analista...
Quanto à análise, estupenda, ou como diria um grande pensador do nosso tempo: "Ensinar é também obrigar a ver o que não se veria se outra pessoa não dissesse para ver."
:)

José Ricardo Costa disse...

Meras influências berlinianas, minha cara! Um homem que admirava os "philosophes", sobretudo, Voltaire, mas que adorava igualmente aqueles que odiavam os "philosophes".
Sabe qual era uma das suas citações preferidas? “There is no reason for supposing that, when the truth is found, it will prove interesting". (C. Lewis) E, agora, o seu comentário:
"It’s a very good remark. If a thing is true, it’s enough –no need to make it interesting. Interesting is one thing, true is another. Some people like things to be true and some people like things to be interesting. I think I probably prefer things to be interesting, but I recognise that the other is better".

Divertido, não?

Ega disse...

Isto tem muito a ver também com o que Saramago escreveu na História do Cerco de Lisboa (excelente romance, mas menos conhecido, do nobel). Como uma pequena palavra (naquele caso "não") pode mudar todo o sentido de uma obra científica de história, e a própria história aliás.

Aproveito ainda para sugerir, porque sei que vai gostar muito, o livro Se numa noite de inverno uma viajante do Italo Calvino.

Anónimo disse...

O Sr. tem toda razão quanto aos nossos muitos enganos. Cito um relacionado a multiplicidades de visões de um mesmo objeto. Sempre achei aquelas gordinhas de “O Banho Turco”, de Ingres muito sexi. Não devia. Uma amiga - talvez por despeito, já que ela é lindamente esguia – me disse que um médico da época diagnosticou nas beldades obesas “um mau funcionamento das tiróides”. A odalisca de braços levantados ao fundo, cujo modelo foi a mulher do pintor, é a que mais sofre sob a ciência do bom doutor. A se crer no médico, aquele banho poderia estar situado em uma enfermaria de doentes terminais... Bom, lá se foi o prazer!

José Ricardo Costa disse...

Deixe lá, o meu amigo não é dentista, pois não? Penso sempre nessa pobre gente a namorar depois de passar uma tarde a arrancar dentes.

JR

Pedro Partidário disse...

...a propósito das interpretações (em arte), deixo pela mão de Susan Sontag:

"In place of a hermeneutics we need an erotics of art".

...em "against interpretation".