21 setembro, 2010

AS COISAS E AS PALAVRAS

                                                                    Thomas Dewing

O comentário do José Manuel Chorão ao post anterior levou-me a ter vontade de escrever sobre uma frase que há dias me ficou debaixo de olho:

"Sabiam que era um dos últimos dias de Verão - já se estava no princípio de Setembro e as folhas e a erva, embora de um verde sem ambiguidade, tinham um ar exausto."Ian McEwan, Na Praia de Chesil)

O escritor fala de um verde sem ambiguidade e de folhas e erva com ar exausto, simplesmente para dizer que as folhas e a erva estavam mais secas devido a um período de mais calor e menos chuva. Estamos perante a descrição de uma experiência que, antes de mais, é empírica, sensorial, absolutamente ordinária. Porém, a partir do momento em que o escritor a transforma numa experiência literária, passamos a habitar uma outra ordem de realidade.

Este situação pode levar a pensar em três ordens de realidade.
1. Uma experiência puramente empírica e sensorial: olhar simplesmente para a erva seca sem qualquer filtragem verbal.
2. Olhar para a erva seca e dizer a alguém, através de uma linguagem comum: "As folhas e as ervas nesta altura do ano ficam secas".
3. Depurar a linguagem, permitindo transformar a experiência comum de uma paisagem numa experiência mais subjectiva, internamente mais complexa. O que faz o escritor.

Na minha opinião, a distância que vai de 2 a 3 é maior do que aquela que vai de 1 a 2. O que está em 2 é apenas uma tradução directa e imediata do que está em 1. É como ver uma parede branca e dizer: "Eu vejo uma parede branca". Mas se compararmos 2 com 3, veremos que, apesar de encontramos em ambos uma experiência verbal, 3 permite fazer emergir uma outra ordem de realidade que não existe em si mesma mas apenas como filtragem subjectiva de quem escreve ou fala. Neste sentido, a linguagem dá muito mais a ver do que esconde. Simplesmente não é um ver objectivo, um ver enquanto sensação passiva perante um estímulo que é dado, ou um ver cuja tradução numa linguagem meramente convencional não passa de uma oca redundância. Será um ver que, embora remeta para o exterior, para o mundo objectivo, revela também o interior daquele que vê, permite aceder a uma experiência verdadeiramente interna de uma experiência externa.
A própria expressão "um verde sem ambiguidade" é muito interessante. Falar em verde sem ambiguidade significa apenas que o verde continua a ser verde, não deixou de o ser. Mas quando li a frase tive que pensar. Pensar na ideia de uma cor sem ambiguidade. Há aqui, se quiseremos, um artifício de linguagem, eu diria mesmo um artifício marcado por uma certa frivolidade quase maneirista. Mas que, dito deste modo, confere à nossa experiência sensorial uma elegância intelectual que nos afasta de uma relação meramente primária e linguisticamente automática.
 Claro que será depois na personificação seguinte que a frase se torna ainda mais rica. Falar do ar exausto das folhas e da erva simplesmente para explicar ao leitor que as folhas estão secas, é verdadeiramente uma experiência literária que irá depois retirar de nós o que de mais subjectivo existe na nossa relação com o mundo. Para terminar, que o post já vai longo, eu diria mesmo que é para ler frases assim que vale a pena ler livros.

6 comentários:

estela disse...

concordo. aliás McEwan vale sempre a pena. e mais - não consegui ler o teu post de uma só vez, porque não conseguia tirar os olhos da imagem. que belo quadro!!!! nenhuma exaustão, nenhuma ambiguidade, um verde longe, muito longe da praia de Chesil... e ainda assim, não tirava os olhos, vi-me obrigada a reler linhas e linhas e... dei comigo a querer ser um daquelas mulheres, sem conseguir decidir qual ;)
obrigada.

paulo,sj disse...

Li os dois posts, tal como leio todos os outros... e sabe muito bem!

Desde já pego no que escrevi: "Sabe muito bem!" Curiosa esta questão da linguagem, torna-nos também mais humanos, como foi dito no comentário. Basta pensar que ao dizer "Sabe" remeto para uma satisfação a partir dos sentidos (tal como o "sabe bem o doce da avó") e, não só neste caminho, como também pode aprofundar ao "saber" de sabedoria. E estes posts sabem bem, pois além de revelarem sabedoria, apetece ficar a saboreá-los.

A beleza das coisas também está neste saborear. No fundo, diria, no viver das coisas com tonalidades que vão para além de uma mera técnica, objectiva, seca e fria. O acalentar através das palavras, mas também pela pintura, música, dança, pode tornar uma simples pedra num "ser vivo".

No entanto, creio que a questão do ser humano vai ainda mais longe. É verdade que buscamos o Oceano do nominável, como auxílio de uma ligação com tudo. Dá segurança nomear. O desconhecido fica assim catalogado, seguro e fechado numa categoria... Mas e a surpresa? A surpresa que pode acontecer mesmo no que aparentemente está conhecido? E quando se trata de humanos dá-se um salto ainda maior...

Foram várias as vezes que tal aconteceu comigo... seja do meu olhar sobre alguém, seja de alguém sobre mim.

Por exemplo:
Estou num meio nada religioso. Vindo a propósito digo que sou jesuíta e vou ser padre. Se esta apresentação for feita logo de início a reacção é de enfado, aborrecimento, apercebo-me de trocas de olhares reprovativas... Se for um pouco mais tarde, depois de uma boa conversa sobre muitos temas desligados de temáticas religiosas, é, muitas vezes de surpresa. E quando digo que sou bailarino de dança contemporânea, então abrem-se portas, pois parece que não encaixo nas categorias do “ser padre”.

Por isso, do que mais gosto é do diálogo, esta porta aberta à relação, ao conhecimento que vai para além de preconceitos (e não no sentido gadameriano).

Caro Ricardo, mais uma vez agradeço o que nos vai deixando de reflexão... Junto o meu agradecimento à Ivone.

Um Abraço!

jrd disse...

Ocorre-me um comentàrio, demasiado modesto para a complexidade do texto: Deduz-se que não houve incêndios no verão da praia de Chesil, porque, se assim tivesse acontecido, nem sequer restariam folhas e ervas, quanto mais um verde, ambíguo (ou 'evidente')...

josé manuel chorão disse...

Acabas de provar o que defendo há cerca de 30 anos: que a mais bela e pura Filosofia não são os filósofos que a fazem; são, sobretudo, os poetas e escritores em geral.
Porque só eles sabem reinventar a realidade com as palavras; e dar essas palavras a beber aos sedentos leitores que com elas reinventarão a sua própria realidade. E assim até ao Infinito. Queres mais pura Filosofia que essa?

José Ricardo Costa disse...

Caro Paulo, eu é que agradeço o seu agradecimento. E continue sempre a dançar. Embora o seu Deus não dance os que Nele acreditam só ganharão em aprender a dançar.
Grande abraço!

Margarida disse...

Professor, que fascinantes seres adejam à volta do que revela...
Que maravilhosas almas, que luminosos corações!
As suas redes trazem à tona uma multiplicidade de milagres e, de repente, apetece-me continuar a acreditar.
Na possibilidade do voo.
Na certeza de Deus.

Bem-haja.

(...e que belo conceito do divino, o arco do corpo em catedral para o Céu, Paulo)