27 agosto, 2010

VÁ PELOS SEUS DEDOS

Lewis Hine
                                                            
Diz Adam Smith [The Theory of Moral Sentiments] que não dormiríamos toda a noite se soubéssemos que no dia seguinte iríamos perder o dedo mindinho . Porém, se houvesse um terramoto na China que engolisse 100 milhões de chineses, ficaríamos chocados mas, passado o choque, não seria coisa que nos tirasse o sono.
O nosso dedo é o nosso dedo, 100 milhões de chineses são 100 milhões de chineses. A minha dor é real, vívida e afecta o meu bem-estar, enquanto 100 milhões de chineses não passam de uma vaga abstracção.
Será, pois, interessante fazer o seguinte exercício, parecido com o de Balzac no Père Goriot: se eu soubesse que, neste momento, morrendo um qualquer chinês na China, me passaria uma dor forte no dedo ou uma dor de dentes, eu iria aceitar?
Eu não aceitaria mas conheço algumas pessoas que iriam aceitar.

4 comentários:

jrd disse...

Claro! O que é representam mil milhões de dedos!?...

Margarida disse...

...não aceitaria nessa equação, mas se alterassem uma premissa, se, em vez da dor no dedo, fosse a vida de um filho?
Ah.., aquilo de sermos nós e as nossas circunstâncias, não é?
Pois..., "a escolha de José" também poderia dar um filme...
('filosofar' é deveras giro, professor...)

josé manuel chorão disse...

Sem dúvida que a maioria dos teus contemporâneos aceitaria o "negócio"; o ser humano é mau por natureza, a sociedade torna-o pior, menos humano...

Anónimo disse...

"Por outro lado, Jakub, sabia que todo homem deseja a morte de outro e que só duas coisas desviam do homicídio: o medo do castigo e a dificuldade física de levar a pessoa à morte. Jakub sabia que se todo homem tivesse a possibilidade de matar secretamente e a distância, a humanidade desapareceria em alguns minutos", A Valsa dos Adeuses, Milan Kundera.