25 agosto, 2010

TO DO OR NOT TO DO THINGS WITH WORDS

Caspar-David Friedrich

Acabo de ler Na praia de Chesil de Ian McEwan. É um livro breve que se lê rapidamente. O tempo da história será de umas doze horas, antes do resumo final. Quando comecei a leitura, faltava-me ali a amplitude de Estranha Sedução ou de O Jardim de Cimento, mas depois percebi a intencionalidade de quem pinta uma miniatura. McEwan assenta uma lupa muito graduada sobre Florence e Edward na sua problemática noite de núpcias. Atenta no pormenor de pensamento de cada um, percorre o caminho das suas associações de ideias, afasta a lupa e escorre para pequenas analepses que enquadram as personagens e informam o leitor, vai de um para outro para, para a teia que, em simultâneo, o pensamento dos dois vai alargando sobre o leito nupcial, nela os enredando.
Não é, todavia, um livro sobre o amor. É um livro sobre as palavras e sobre a possibilidade ou a impossibilidade de serem ditas. Em Na praia de Chesil surgem e, sobretudo não surgem, a pretexto do amor.
Os corpos de Florence e Edward desencontram-se porque se lhes desencontram as palavras. E tanto de que é dito como do que não é dito se desenha uma vida.

Para abrir o apetite:
“Este permaneceu completamente silencioso, uma forma indecifrável, bidimensional, recortada contra o mar. Com um movimento incerto e esvoaçante, a mão dela ergueu-se até à testa para afastar uma madeixa de cabelo imaginária. No seu nervosismo, começou a falar mais depressa. Embora pronunciasse as palavras com crispação. Como uma patinadora sobre gelo fino, acelerou para se salvar do afogamento. Atravessava as frases a toda a brida, como se só a velocidade pudesse criar sentido, como se o pudesse impelir a ele para além das contradições, fazê-lo dobrar tão rapidamente a curva da sua intenção que não fosse possível haver objecções a que ele se pudesse agarrar. Como não arrastava as palavras, parecia calamitosamente brusca, quando na realidade estava mais próxima do desespero.”

2 comentários:

josé manuel chorão disse...

Aqui está uma boa apresentação do livro.
É curioso pensar-se que, mais que as que dizemos, são as palavras que não dizemos que marcam a nossa vida.
Às vezes dizemo-las fora do contexto ou em altura imprópria, o que acaba por ser pior que as não dizer de todo. Daí a necessidade de se reflectir sobre o que se diz. E o que se cala. Porque dessa escolha resulta a vida que vamos vivendo, cada um de nós. Seres capazes de falar. E de calar, o que é mais difícil. E mais importante.

estela disse...

para mim, ler "a lupa" foi como estar as ver os pássaros de hitchcock a rondar a minha janela sobre o livro. lia o que ela dizia, sentia e pensava, o que ele pensava dizia e sentia e só tinha vontade de gritar: cuidado! cuidado!

gostei da história e senti alívio por ser breve. já basta a vida cheia de momentos assim, que atravessamos sem lupa, a culpar deus, as tais malhas caídas ou palavras feias de outros.

um beijinho