16 agosto, 2010

SWEET DARKNESS OF YOUTH

Já por aqui disse quanto me incomodavam conversas em voz alta no café e a minha entrada, inimputável, pelas vidas alheias adentro.
Todo verso tem o seu anverso e tive hoje a prova disso. Bebia o café enquanto, na mesa ao lado, duas jeunes filles en fleur discutiam um problema:
- ‘tás a ver? Eu queria era saber se aquilo é só conversa ou se é mesmo, mesmo amor.
A outra meditou um pouco:
- Uma vez li uma cena fixe que podias fazer. Chegas à beira do gajo e dizes: “Matei um homem”. Se ele se pirar, esqueces. Se ele responder: “Ok, e agora? Onde é que vamos esconder o corpo?”, é amor a sério.
- Grande maluca!
E riram, riram, afastadas já das vielas escuras e estreitas do amor.
Quando me levantei e passei mesmo rente à mesa delas, apeteceu-me dizer: “Sabe, há uma terceira hipótese. Se ele disser “Pronto. Agora, vamos procurar um advogado.”, não corra com o rapaz.”
Mas não disse nada. Lembrei-me a tempo que, uma vez, tive 18 anos e não queria conselhos de gente velha. Sabia tudo.



4 comentários:

jrd disse...

Pois. Mas a 3ª via, normalmente, não resulta e a juventude sabe disso.
E nós também...

Anónimo disse...

Lendo seu blog regularmente me dou conta de que o acordo lingüístico é mais que um erro: é uma tolice sem tamanho. Já li textos seus que mal consegui entender. Bom exemplo, é este das raparigas... Houve época que havia forte ligação entre nós, mas já faz tempo. A distância é tão grande, que chego a pensar que os senhores Sapir-Whorf estavam certos: línguas diferentes recortam diferentemente a realidade. Claro, sabendo como sei que do meu lado do Atlântico ninguém dá a menor bola para governos e acordos, este também vai ficar jogado dentro de uma gaveta empoeirada. Melhor assim. Espero que vocês sejam igualmente sábios e continuem recortando o real aí do jeito luso. Imagino, esperançoso, que a senhora leia meus comentários com a divertida perplexidade de ver um tapuia escrevendo na língua de Camões.
Saudações,
C.

Ivone Costa disse...

Meu caro C., penso que estará dizendo, em seu comentário, que teve dificuldade em perceber a linguagem que as moças estavam usando: aquilo se trata do que, do lado de cá, nós chamamos de calão e vocês chamam de gíria. Há também um regionalismo: "à beira de" que significa "perto de". A mocinha deveria ser do norte e eles ficam falando assim por lá.
Ah, e, quando escrevo "não corra com rapaz", estou querendo dizer "não dê o fora no moço". "Correr com alguém" é uma expressão idiomática.
Então gostou da minha tentativa de escrever em português do Brasil? Foi brincadeirinha.

Falando a sério, o seu português é excelente.
Aliás, eu acho que a sintaxe da frase no vosso português tem, muitas vezes, uma bela ondulação que por cá se perdeu, pelo menos numa linguagem menos cuidada.
Ouvir um brasileiro culto a falar, ou ler um dos seus textos é para mim, sempre, um grande prazer.
Acordo ou não-acordo, teremos sempre a língua. E essa tem razões que a lei desconhece.

Margarida disse...

..."ondulação"...!
Que beleza!
É mesmo isso!
Eu costumo redigir 'tropical' para identificar essa nuance bamboleante da nossa língua, mas 'ondulação' é tão mais certo! :)
E depois..., há o mar, não é?
Esse oceano de águas e mágoas entre os povos que navegam a História...