08 agosto, 2010

O DIA ONDULA AMARELO COM TODAS AS SUAS COLHEITAS *

Vinte e cinco anos sobre as aulas de Teoria da Literatura, há hábitos que custam a morrer: penso que nunca peguei num livro de ficção, por muito empolgante que fosse o plot ou o génio do autor sem que, inconscientemente, o estatuto do narrador, a focalização, o discurso indirecto livro, o papel da personagem na economia da narrativa se entremeassem nas linhas das escrita e, de algum modo, beliscassem a minha fruição do texto como alguém que, em vez de saborear um doce, se prendesse à dose dos seus ingredientes
Terminei agora a leitura de A mecânica da ficção de James Wood. Wood é um renomado crítico. Vem de Eton e de Ervard e é, actualmente, professor de Prática da Crítica Literária em Harvard.
Este livro lê-se de um fôlego. Longe do academismo que seria de supor, o autor conduz-nos ao longo de pequenos capítulos, entre metáforas e diálogos, como se duma vista guiada se tratasse. Aponta para ali e para acolá, pequenos apontamentos, e está lá tudo. De Iris Murdoch a Tosltói, de Saramago a Joyce, de Proust a Virginia Wolf, de Updike a Shakespeare, de Coetzee a Flaubert.
Teoria da literatura no que ela realmente deve ser: ensinar a saber ler.

Só lá falta Nemésio: “Margarida não ia triste nem alegre: ia embrulhada no casaco cinzento, de gola puxada para cima.”

*Virginia Wolf, As ondas

6 comentários:

Margarida disse...

...adorava ser sua aluna.
Tive pouquíssimos professores que se me retiveram na memória (os quais recordo com muito amor e imensa saudade).
Sei que é dessa leva de gentes desbravadoras de ignorâncias.
Farol de pensamentos e palavras.
...ah, as palavras...

jrd disse...

Um poste 'Vintage'

Anónimo disse...

"Um romance fracassa, não por as personagens não serem suficientemente vividas ou profundas, mas quando não conseguem que o leitor se adapte as suas convenções", J.W. Não li o livro. Qual o exemplo de romance que ele dá? "As asas da Pomba"?

Ivone Costa disse...

A citação a que se refere está no capítulo 74 e não se restrige a uma obra em particular, mas enquadra-se no seguinte raciocínio: "Esse nível de realidade varia de autor para autor, e a nossa ânsia de um nível de realidade, ou profundidade específica de cada personagem é educada por cada autor, adaptando-se às convenções internas de cada livro. É assim que conseguimos ler W. G. Sabald num dia, e Woolf no dia seguinte, e Puilip Royh no seguinte, sem exigir que todos se assemelhem uns aos outros. Será um óbvio erro categórico acusar Sebald de não nos apresentar personagens "profundas" ou "complexas", ou acusar Wolf de não nos apresentar muitas personagens secundárias robustas e suculentas como Dickens. Creio que um romance fracassa, não por as suas personagens serem suficientemente vívidas ou profundas, mas quando não consegue que o leitor se adapte às suas convenções, quando não consegue engendrar uma ânsia específica pelas suas próprias personagens, pelo seu nível de realidade"

Espero ter ajudado.

Ivone Costa

Anónimo disse...

Ajudou muito. Obrigado professora. O livro de J.W. ainda não saiu por aqui, mas acho que não vai demorar. Enquanto isso vou lendo resenhas na Internet, o que sempre dá uma idéia. Santa Internet, tão grande e tão rasa. Por exemplo, acho pouca coisa interessante sobre “As Asas da Pomba”. Vi o filme e estou lendo o livro, que acho extremamente absurdo. Faltou ali um editor competente. Outro dia, li uma maldade de Somerset Maugham, contista que adoro e tenho vergonha de confessar, dizendo que H.J. deixou de tratar do maior acontecimento da história, a ascensão dos Estados Unidos como potência, para tratar de frivolidades da aristocracia inglesa. Comentário injusto, já que “As Asas da Pomba” também é sobre isso, mas que adorei porque estou com raiva da escrita empolada e desnecessária de H.J. Gostaria que os romancistas também conhecessem Guilherme de Occam. Remédio que eu mesmo deveria tomar... Novamente obrigado.
C.
PS: No seu divertido texto sobre a Rainha, a Senhora não levou em consideração o explosivo IRA, que não são gente de se esquecer...

Ivone Costa disse...

Caro C., esqueci-me do facto, é certo. Obrigada por mo lembrar. Mas ficariam empatados : se a rainha tem o IRA, o Procurador tem a ira do Sindicato dos Magistrados.