13 agosto, 2010

HE HAD A FARM IN AFRICA

Ruy Duarte de Carvalho 1941-2010

Há, na criteriosa dádiva das Musas, uma cintilação subtil que distingue um poeta de outro. Um traço de luz que o torna único. Para mim, em Ruy Duarte de Carvalho, era a colocação do adjectivo. Era a propriedade na utilização, era o inesperado da escolha. Era o poeta, o antropólogo, o etnólogo e as longas noites africanas. Quando nos morre um poeta, choramos-lhe palavras novas que não iremos voltar a ler. Ao poeta, tê-lo-emos sempre ao longo das palavras lidas e relidas, uma dança tribal em redor de um lume eterno.

Este é (quão difícil escolha) um dos seus poemas:

TRANSMUDAÇÃO DAS ÁGUAS (4)

Depois,
a pouco e pouco
decanta-se o alvoroço
e muda, em nós,
a direção do vento
vespertino.
O cacto agradecido
espiga já
e amadurece a flor
mais reservada
e rara,
rubro espinho cravado
na teimosia opaca
do dorso de Dezembro.

A nitidez das serras
denuncia
o altear das brumas.
E os dias de Janeiro,
renovados de vigor continental,
sucedem-se cada vez mais jovens,
dando-se as mãos na noite seca
e percutindo nela
o brusco estralejar da lenha seca,
o gume-instante da labareda esguia.



2 comentários:

josé manuel chorão disse...

Pois tinha.
Uma quinta em África.
Na África quente em que escreveu este belíssimo poema que escolheste.
Cada qual tem a sua África e eu sei o quente que está aqui na minha...
Mas enganas-te: ele não morreu a sério. Porque um Homem (poeta ou de outra qualquer desocupação) só morre quando dele cessa a memória. E não é o caso: dele há e haverá memória, enquanto os homens continuarem a reviver as imagens que nos deixou, a força com que escreveu, a verdade, a coragem de assumir a diferença e o adeus. O adeus.
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Pois é, mudando de assunto: encontrei o teu Blog por acaso, saltitando de nenúfar em nenúfar, qual pesado e absurdo rinoceronte que teima em surfar pela Internet em lugar de fazer alguma coisa útil ao domingo de manhã.
Li e gostei; porque encontrei aqui tanta coisa de que gosto, desde o Alberto Manguel até à fina ironia com que escreves e criticas tanta coisa criticável.Digo-te que escreves muito bem; o que não me surpreende nada, aliás.
É bom constatar que há pessoas assim: verdadeiras, sólidas. Que se mantêm, apesar dos anos (décadas) fieis a si mesmas.
Só os anos passam, a verdade mantem-se. Enquanto o fôr.

Um abraço
josé manuel chorão (sim, esse mesmo que encontrarás na memória).
.
Post-Sricptum: saudações kantianas (em nome dos bons (?) velhos tempos)

José Ricardo Costa disse...

Ah, seu malandro! Temos umas belas contas a ajustar! Escreve para o meu e-mail para eu ficar com o teu: josericardocosta.60@gmail.com

Abraço!