12 agosto, 2010

FELICIDADE

Lewis Hine

Martha Nussbaum (The Therapy of Desire-Theory and Practice in Hellenistic Ethics) lembra uma experiência muito interessante com viúvas indianas. Inquiridas acerca da percepção de si mesmas quanto ao seu estado de saúde, consideravam ser este bom. Isto, apesar de haver dados clínicos objectivos segundo os quais era mau. Dez anos mais tarde foi feita semelhante avaliação às mesmas viúvas. Desta vez, porém, a percepção do seu real estado de saúde aumentou consideravelmente. Porquê? É simples. Durante esse tempo receberam uma educação para a saúde e obtiveram muitas informações a esse respeito.
Ora, com a felicidade passar-se-á eventualmente uma coisa semelhante. As pessoas, hoje, não são mais infelizes do que antigamente. Acontece que mudou bastante a nossa percepção sobre o que é a felicidade, o conceito de normalidade ou a exigência relativamente ao que se considera uma vida boa.
As viúvas indianas estariam melhor antes ou depois de ter recebido a educação médica? Provavelmente, ficaram piores. Com essa consciência passou a haver dor e sofrimento onde antes havia apenas normalidade. Mas também temos que pensar que a saúde não é apenas um estado passivo (fuga à dor) mas activo (procura do prazer físico e mental).
Com a felicidade poderá ser a mesma coisa. Muito provavelmente era bem mais fácil ser infeliz há 50 anos do que hoje. Com a felicidade poderá ser o contrário. Será bem melhor ser feliz hoje do que ser feliz há 50 anos.

4 comentários:

jrd disse...

Simplificando: Antigamente bastava um par de botas, hoje são necessários uns "Sebago" para se ser feliz.
Já a infelicidade, essa, continua descalça.

Rita TSBGC disse...

Receio que a consciência não seja peça essencial na fruição.
Há pouco tempo disseram-me que as viúvas indianas ( e ainda é assim em Goa) ficam impedidas de comer doces, talvez a falta de açucar lhes agudize o sentimento de infelicidade...
Ou então tudo é relativo, somos sempre menos infelizes que outros e mais felizes que uns tantos, a comparação, tão alma pequena e casa fechada, é uma forma securizante e inactiva que concede, a muitos portugueses, o sentimento de felicidade.
Também não sei o que era a normalidade de antes, sou coleccionadora de anormalidades de todos os tempos, protejo anacronismos como espécies em vias de extinção.

Kamaroonis disse...

Onde diz "[...]Será bem melhor ser feliz hoje do que ser feliz há 50 anos" eu acrescentaria: será bem melhor ser feliz "agora" do que em qualquer outra altura... :)
Mas quando li o seu "post" a primeira coisa que me passou pela cabeça foi a expressão inglesa "ignorance is bliss" e que, realmente "feliz", é aquele não sente essa estranha necessidade de pensar em (como) ser feliz ou até questionar-se sobre o que é essa coisa da felicidade.

Um abraço.

Anónimo disse...

Certo estava o Grilo, o venerando preto, criado de meu Príncipe Jacinto, ele e nós estamos a sofrer de fartura. É ela que nos leva a pensar na felicidade em Índias, terra de muitos deuses, que muito servem para agradecer ou para pedir. Nós por cá só sabemos reclamar, imersos em farturas. Para isso não há deuses que prestem...