15 agosto, 2010

EM NOME DAS PALAVRAS


Volto a James Wood e à sua Mecânica da ficção como, aliás, penso que voltarei muitas vezes. Mas antes, deixai que conte uma pequena história. Foi já há um bom par de anos, ainda Amor de Perdição fazia parte do programa de Português. Estávamos de volta das personagens, precisamente no momento em que Camilo caracteriza Teresa Albuquerque, dizendo que era uma menina “ regularmente bonita”. Esforcei-me um tempo infindável para que aquele meu pessoal sentisse a densidade do advérbio e a intensa carga semântica que ele comportava. O que é afinal uma pessoa regularmente bonita? Tentei cotejar o “regularmente bonita” com a caracterização sadia de Mariana, mas nada. Com aquele “regularmente” Camilo é, a um tempo, subtil e preciso, irónico e delicado. Dizia tudo sobre a beleza de Teresa sem nada dizer de objectivo sobre a beleza de Teresa e fazendo com que o leitor tudo ficasse a saber sobre a beleza de Teresa. Apenas um advérbio habilmente colocado.
Por fim, um dos moços disse: “É assim um pãozinho sem sal de boa qualidade?” Rimos um bocado e eu lá continuei com a composição da personagem e o seu papel na economia da narrativa, assunto a que prestaram, como ninguém duvidará, um interesse inequívoco.
Em Mecânica da Ficção encontrei, a páginas 202, o seguinte texto:

Em Sea and Sardinia, Lawrence descreve as pernas curtas do rei Vítor Manuel; mas refere-se às “suas pequenas pernas curtas”. Tecnicamente, não há necessidade para “pequenas” e “curtas na mesma frase. Se Lawrence fosse um estudante, o seu professor teria escrito “redundância” na margem da folha e riscado um dos adjectivos. Mas se repetirmos a frase em voz alta, o que é redundante passa a ser inevitável. A frase precisa das duas palavras, porque só as duas juntas produzem o efeito cómico. E “pequenas” não significa exactamente o mesmo que “curtas”: as duas desfrutam da companhia uma da outra; e “pequenas pernas curtas” é mais original que do “curtas pernas pequenas”, por ser mais eufónico, mais absurdo, forçando-nos a tropeçar ligeiramente – um tropeção de pernas curtas – no ritmo inesperado.

Eu dou, há 30 anos, umas aulas desengonçadas. No dia em que conseguir explicar uma coisa, clara e objectivamente, assim de uma penada, como quem conversa numa esplanada de café, terei feito, finalmente, alguma coisa de jeito.

4 comentários:

jrd disse...

Pãozinho sem sal, como manda uma (nova) Lei “regularmente oportuna”

Margarida disse...

Querida Ivone: gosto muito de si.
Tenho dó das almas que gravitam ao seu redor (será redundância? -ultimamente traumatizaram-me com isso...) sem se aperceberem dos universos deslumbrantes que aponta.
E dó de não ser tão menina que possa sentar-me a ouvi-la e a ver horizontes luminosos entre os seus gestos, bordados na filigrana do seu pensamento.
Tenho dito.

Diana disse...

Quantas saudades...e quanto peso que essas aulas "desengonçadas" tiveram na forma como hoje também tento, pelo menos, "desengonçar" qualquer coisita.

Anónimo disse...

Professora,
Quando tiver um tempinho, escreva mais alguma coisa sobre James Wood e "Mecânica da Ficção".
Obrigado!