21 agosto, 2010

“DAVA-TE A ENTENDER QUE ESTAVA À TUA ESPERA / DAVA-TE A ENTENDER QUE ME CHAMAVA EUROPA" *


Quando estivemos no Porto, em Janeiro passado, no Museu Soares dos Reis eu fiquei presa neste retrato. Em baixo na moldura, a placa indicava “Augusto de Roquemont – Baronesa do Freixo”. Uma baronesa oitocentista sentada, composta, num récamier carmesim vestida de veludo verde profundo. Um rendilhado orla o decote em barco do vestido de onde saem duas golas sobrepostas, com um ligeiro bordado ton-sur-ton. A senhora baronesa não tem os traços finos das casas antigas nem são de família as jóias que ostenta, num quanto baste discreto. Brincos pequenos, um peitoral, duas pulseiras e a aliança. E o lenço, sim. O lenço de renda sumptuosa, que o senhor barão deve ter dinheiro, e a estola de arminho. A estola que é o único excesso, como se a baronesa tivesse atentado em todos os pormenores que pudessem denunciar o novo-riquismo e o dinheiro que o senhor barão trouxe do Brasil e aquele pequeno nada tivesse denunciado, como diria Eça, que não lhe tinham morrido avós em Aljubarrota. Ah! Adiantei-me na história e não queria. Que, nestas coisas que metem muita gente, convém que não nos percamos porque não queremos o leitor a bocejar de enfado.
Voltemos então ao Soares dos Reis que, já agora, tem uma cafetaria óptima. O quadro é muito belo, sobretudo pela força dos contrastes. O contraste das cores, a compostura da figura num ambiente doméstico, os traços do rosto, os traços fortes de um rosto menos belo do que o vestido.
Por um qualquer motivo que não percebi na altura, aquele quadro fazia-me lembrar estoutro, do qual já falei aqui e delirei aqui, o retrato de Margarida de Áustria, já imperatriz do Sacro-Império, de luto pela morte do pai, Filipe IV, pintado Juan del Mazo, sogro de Velásquez.


Da escola espanhola seiscentista ao romantismo português vai uma grande distância, do Prado ao Soares do Reis também. George Steiner em A Ideia de Europa diz que a Europa é um continente que se pode percorrer a pé. Talvez por me lembrar disso, eu achei que haveria de perceber, mais dia, menos dia, por que razão aqueles dois quadros se cotejavam no meu pensamento. Algum caminho me levaria lá.
Por um destes dias, comecei a puxar os fios deste novelinho.
A senhora no retrato nascera Laurinda Ribeiro Lousada e casara, aos 14 anos, com António Afonso Velada, abastado comerciante do Porto que fizera sólido pecúlio no Brasil. Tão sólido que lhe permitiu comprar, por quinze contos, o palácio do Freixo em Campanhã, desenhado por Nasoni para o cónego D. Jerónimo de Távora e Noronha e que, na altura da venda, já pertencia a um seu descendente, Jorge António Salter de Mendonça.
Não tardou António Velada a fazer obras de fundo, enfim com mais fundo do que gosto: o salão árabe, o salão chinês e outras sumptuosidades evitáveis. Na frontaria, mandou retirar o brasão dos Távoras e colocar um outro com as armas que para si escolheu. Em 1865, por carta régia do rei D. Luís, é feito Barão do Freixo e em 1872, por mercê do mesmo senhor, Visconde do Freixo. De ambos foi primeiro e único titular, porquanto não sendo títulos de juro e herdade, nem tendo sido renovados, não passaram aos herdeiros.
Das muitas festas no palácio do Freixo falou-se longamente no Porto. Quando, em 1872, D. Luís e D. Maria Pia se deslocam à cidade, é no Freixo que ficam hospedados.
Regressemos ao quadro? Augusto de Roquemont foi, sobretudo, um extraordinário retratista. Nasceu em Génova, filho do príncipe Friedrich August von Hesse-Darmstadt. A mãe, não se sabe quem tenha sido. Este príncipe era uma figura de novela, um aventureiro em busca da glória das armas. Provavelmente por ter conhecido D. Miguel em Viena, decidiu vir para por Portugal oferecer o seu braço à causa absolutista e encher-se de fama. Há registos da sua presença, perto de Braga, em 1828. Nesse mesmo ano, manda vir para Portugal o filho, a quem sempre custeara os estudos artísticos. Permanecem juntos por pouco tempo, pois o príncipe de Hesse-Darmstadt, vendo que a glória lhe fugia, foi-se embora por essa Europa acima. Augusto de Roquemont fica e morrerá no Porto em 1852, com 48 anos, estimado por todos.
Se nesta coisa das datas, as minhas fontes estão certas, Laurinda Ribeiro Lousada, nascida em 1830, não poderá ter mais de 22 anos na altura em que foi retratada e ainda não era baronesa. Era uma senhora muito rica do Porto, imagino-a contida e discreta, a receber a modista e a bordadeira ou a ajoelhar, ajeitando em redor a saia de talhe perfeito, na missa da Sé.
Em 45, nasceu-lhe uma filha, Laurinda Velado, da qual terá um neto que morrerá aos 30 anos em Lamego.
Em 49, nasce o segundo filho que não lhe dará netos, António Afonso Velado Jr. que casará com Maria Camila Ernestina de Saldanha e Daun, trineta do Marquês de Pombal e de Leonor Ernestina, condessa de Daun, que em 1745 abandonará a Viena natal para vir residir para sempre em Portugal com o marido que abandona o cargo de ministro plenipotenciário na corte austríaca.
Leonor Ernestina, segunda mulher do ainda apenas Sebastião José Carvalho e Melo, desce uma estrada da Europa, quase a mesma estrada que Margarida Teresa de Áustria, infanta de Espanha, subira, oitenta anos antes em direcção à corte austríaca para casar, aos 15 anos, com Leopoldo I, imperador do Sacro-Império, seu tio.
No retrato de Laurinda Ribeiro Lousada, não há nada por detrás da figura. Ela senta-se sobre veludo, vestida de veludo, segura o lenço de rendas e espera, paciente e digna, que Augusto de Roquemont a pinte sobre a tela e lhe dê um recanto na eternidade.
Por detrás de Margarida de Áustria, Juan del Mazo pintou aquelas figurinhas espectrais. Tão diferente e tão semelhante ao quadro de Velásquez, o quadro dentro do quadro. Mas em del Mazo já não há espelhos a reflectir os reis, só há a memória de Margarida lá no fundo, o bobo, a anã, a camareira. Maria Agustina Sarmiento e Isabel Nolasco, Las Meninas, já não se debruçam solícitas para a infanta. A imperatriz está luto pelo pai que lhe morrera há menos de um ano. E viverá de luto até morrer aos 21 anos: dos quatro filhos, só uma sobrevive e o futuro imperador, José I da Áustria, será filho do terceiro casamento de Leopoldo com Leonor Madalena, condessa palatina de Neuburgo.
Quando o visconde do Freixo morre, a viscondessa vende o palácio. Casará de novo, aos 51 anos, com o visconde de Santo Ambrósio. E não haverá geração.
Que têm Margarida Teresa de Áustria, infanta de Espanha, imperatriz do Sacro-Império, e Laurinda Ribeiro Lousada, viscondessa do Freixo, em comum?
Nada. Tudo. A Europa é um continente que pode ser percorrido a pé. Qualquer estrada real pode ir dar à rua da Cedofeita, Campanhã pode desembocar nas portas de Brandemburgo.
Deuses das coisas passadas, olhai pelo Pórtico da Cariátides, pela sala dos espelhos em Versalhes, pelo Palazzo Vecchio, pela Torre de Londres, pela biblioteca da Ajuda, pelas Janelas Verdes, não deixai que se calem os quadros nas paredes dos museus. Eles que gritem que estão lá por nós. E que todos se chamam Europa.

* David Mourão-Ferreira

3 comentários:

estela disse...

ainda nenhum comentário?
hmmm
eu adorei!
tive de reler algumas frases para entender a genealogia e tal, tive de fazer vários scrolls para rever as imagens e tive de recostar-me uns momentos a olhar o "veludo verde profundo" que me lembrou os belos olhos verde musgo de um rapaz noutros tempos...
mas o que mais gostei foi descobrir a ponte que liga as histórias que ligam as imagens que acabam por nos ligar a nós também!
obrigada Ivone!

Ivone Costa disse...

Só mesmo a Estela é que tem paciência para ler estas coisas longas e maçadoras.
Obrigada digo eu.

Anónimo disse...

Olá

Por pura preguiça ou por entender que nada teria a acrescentar, não comentei. No entanto julgo ter sido um dos "posts" que, entre outros, li com prazer aqui no blog. Vai para a a minha categoria de "Informativo & Interessante".

Só comento agora para dar um pouco de ânimo à autora :)

Luís