25 agosto, 2010

A BORBOLETA

                                                        Edward Steichen, Auto-Retrato

Regresso a Fumo, de Ivan Turguénev.
Logo depois de Litvínov se ter declarado a Irina, mulher que haveria de destruir a sua vida, o narrador escreve: "Tudo estava silencioso na sala; uma borboleta perdida agitava as asas, debatendo-se entre a cortina e a janela".
Um pouco mais à frente, tendo a consciência de que estava a cometer um tremendo erro ao querer assumir esta relação, Litvínov diz a Irina: "Digo-lhe tudo isto para acabar depressa com esta...com esta tragicomédia".
E acrescenta o narrador: "Litvínov ficou outra vez calado; a borboleta debatia-se e esvoaçava como antes".

Há, nesta passagem, uma tensão genial. A tensão entre o silêncio de Litvínov e o esvoaçar desesperado da borboleta. Uma tensão que sugere uma relação inversamente proporcional entre o silêncio de Litvínov e o movimento das asas da borboleta. Quanto maior o silêncio de Litvínov, mais forte será o esvoaçar da borboleta, e sugerindo a ideia de que, se por acaso Litvínov se fosse embora em vez de ficar silencioso à espera da reacção de Irina, a borboleta ter-se-ia libertado do opressivo espaço entre a cortina e a janela. Ou seja, o movimento e dinamismo de Litvínov teriam levado ao alívio da borboleta, ao repouso da borboleta.

Só um grande escritor conseguiria ver uma borboleta onde muitos apenas veriam uma sinistra e fatal declaração de amor.

2 comentários:

jrd disse...

Só um grande escritor seria capaz de desenvolver o tema sema abrir a janela.

josé manuel chorão disse...

E só um grande leitor seria capaz de perceber o que se não diz, apenas se insinua. Vivam, pois, os grandes livros. E os grandes leitores que fazem deles coisas vivas.