14 agosto, 2010

ALICE IN CRAZYLAND


O poeta romano Catulo, num dos seus Carmina, interpela-se, dizendo: “O ócio, Catulo, faz-te mal.” A mim também deve fazer: naqueles instantes que antecedem a minha curta siesta pós-prandial, sou acometida de pequenos delírios. Hoje, os deuses enviaram-me o seu mensageiro, de fato e gravata aprumada. As ordens eram claras: eu teria de escolher, rapidamente, entre ser a rainha de Inglaterra e o Procurador-geral da República. Bem, se há coisa que aprendi é que aos deuses não se desobedece. Fui buscar papel e lápis para alinhar pontos a favor de uma e de outra opção.

1. A rainha mora num palácio. O Procurador trabalha num palácio. Mas trabalhar e morar são coisas diferentes.
Um ponto a favor da rainha.

2. A rainha vai ser rainha até morrer. O Procurador, um dia, deixará de ser Procurador. Terá uma reforma e a rainha não.
Um ponto a favor do Procurador.

3. A rainha tem diamantes, pérolas rubis, coroas, diademas. O Procurador só tem um colar.
Um ponto a favor da rainha.

4. A rainha tem Sandringham para passar o Natal. Tem Balmoral para o Verão e Balmoral deve estar decorado no english countryside style, assim em ponto grande.
O Procurador, enfim, in dubio pro reo, não sei onde passará Natais e férias de Verão.
Um ponto a favor da rainha.

5. A rainha tem, como toda a gente, os seus problemas. Quando o príncipe de Gales casou com aquela mocinha que era educadora de infância, Diana Spencer, e o caso correu mal e depois houve todos aqueles problemas com a outra nora e, ainda por cima, o incêndio de York, a rainha abriu a sessão do Parlamento, dizendo que tinha sido um annus horribilis. Como o ensino inglês é ligeiramente melhor do que o nosso, os mocitos aprendem alguma coisa de latim. Não houve, por isso, derivas escatológicas com a frase. Os ingleses limitaram-se a comentar com fleuma: “Pobre senhora! Tudo lhe acontece.”
O Procurador lá anda enovelado em coisas estranhas, de faces ocultas, apitos de metais preciosos, uma coisa com um centro comercial e o sindicato dos senhores Magistrados. E ninguém tem pena dele.
Mais, pensa estar a fazer uma metáfora engraçadinha e cai-lhe o gáudio do país em cima.
Há nisto, também, uma outra questão: o Procurador pronuncia a metáfora da rainha de Inglaterra e foi o que se viu; o outro senhor teve aquele problema com o bolo-rei. Não há dúvida que Portugal tem problemas reais.

6. A rainha não tem poderes. O Procurador também não.
Empatados, o Procurador e a rainha.

7. A rainha vive um momento de sossego. As actuais noras não lhe causam embaraços. Suas Graças são quase imperceptíveis: a duquesa de Wessex anda caladinha e sossegada, a duquesa de Cornwall faz o que tem a fazer, que isto de casar com um príncipe herdeiro não são só diademas da Cartier. São recepções, jantares de estado, festas de inauguração. E ela vai. E sorri. Casar com um príncipe é cumprir obrigações.
Resumindo, a rainha está sem problemas. O Procurador há-de deixar de ter problemas.
Empatados, o Procurador a rainha.

8. Quando vai para Balmoral, a rainha usa lenços Hermès e conduz um Range-Rover, coisas que muito aprecio. O Procurador não tem lenços Hermès nem Range-Rover.
Um ponto a favor da rainha.

Além do mais, eu gosto de chá e de casas grandes. Mal acabava a reflexão e eis que o mensageiro divino volta para indagar da minha escolha. Como os deuses tudo sabem antes de os próprios mortais o saberem, desta vez, ele era um engomado mordomo, cabelo branco cortado muito rente, chamado Hopkins:

- Mrs. Costa, do you have already choosed, if I may ask?
- Yes, Hopkins, I did: I shall be the queen.
- I am delighted, Mam. God bless Your Majesty.
Desfez a vénia a aprumou-se de novo:
- Would you care for anything, Mam?
- Hopkins, would you send someone to buy a Hermès foulard for me? It’s always windily on the Highlands, isn’t it?
- Oh, yes, indeed, Mam. With your permission, I am going to provide for the foulard.
- Thank you, Hopkins.
- You are welcome, Mam.

Entretanto, eu tenho de ir para a cozinha, mas vou dando notícias.

3 comentários:

jrd disse...

Parabéns, magnífico!
Nada como um um texto pleno de fina ironia para começar bem o fim-de-semana.
Aqui vai um despretensioso comentário ponto a ponto:

1)Coisas diferentes, excepto nos palácios-fábricas do "reino da China".
2)Terá?... Pelo andar da carruagem (real), já faltou mais para que em Portugal as reformas sejam post mortem
3)A rainha também poderá ter um colar cervical se se espalhar com o jeep.
4)Talvez em Porto de Ovelha, que fica numa região lindíssima para passar ambas as épocas.
5) O trono é rijo e, na ocasião, não devia haver proctologistas à altura no Reino Unido. Por cá, o 'porblema' real vai ser a sucessão que se adivinha.
6) Poderes: A rainha nunca tocou no Blair dela e o Procurador não toca no nosso...
7) A rainha não tem problemas com as noras, o Procurador há-de deixar de ter o problema de andar à nora.
8) O procurador só deve usar lenços descartáveis (produtos brancos).

Se eu tivesse que escolher,"passava", mas felicito-a por ter abdicado da siesta para poder confeccionar este saboroso poste, mesmo antes de vestir o "Hermès apron" e regressar à cozinha.
bfs

Ivone Costa disse...

Caríssimo jrd, o seu comentário é magnificente. O único mérito do meu post é tê-lo suscitado.

Obrigada.

Margarida disse...

Ivone, vê como basta um 'jrd' para iniciar um clã?
Vénia para este texto digno de néons e aplauso (que vem de longe) para este comentador impressionante.
E recuo para fora de cena.