14 julho, 2010

SCUT

Tenho à minha frente um horário dos comboios de 1865 o qual me informa que uma viagem entre Lisboa e o Porto demorava mais de 12 horas. Em garoto, nos anos 60, fiz duas viagens de carro com os meus pais entre Torres Novas e Paris. O primeiro dia era para dormir na Guarda, tal era o tempo que se demorava até chegar a esta cidade. Quem fizesse Lisboa-Porto pela estrada nacional nº1, demorava outra eternidade. As viagens para o Algarve eram épicas. Quando de manhã se via a praia a emoção era quase tanta como nas Vinhas da Ira quando chegam à Califórnia.A relação espaço-tempo que hoje existe não tem nada que ver com a noção de espaço-tempo de 1865 ou de há 40 anos atrás. Hoje seria inconcebível fazer uma viagem entre Torres Novas e a Guarda, atravessando dezenas de aldeias a 50 km/hora, indo atrás de tractores em estradas com curvas atrás de curvas, parando em passadeiras e semáforos.Quer isto dizer que, nos nossos dias, a rapidez e a segurança não são um luxo, são uma necessiade básica. As pessoas deslocam-se cada vez mais, cada vez para mais longe e a sua vida não se compadece com tractores, curvas e velhinhas de bengala a atravessarem passadeiras.Por isso, obrigar hoje alguém a pagar uma auto-estrada só porque existem percursos alternativos é de um cinismo atroz. Muito bem, a SCUT fez-se e teve que se pagar. Com o dinheiro de todos nós, é verdade. Mas então uma estrada qualquer entre duas aldeias do concelho de Mértola, de Vieira do Minho ou de Nelas não teve que ser feita e paga? As estradas não custaram todas dinheiro? Sendo assim, deveríamos ter que pagar só para andar na estrada. Se eu quiser ir de casa ao cinema de automóvel, deveria pagar para o fazer. Aquela estrada foi paga, certo? Ou será que o alcatrão de uma auto-estrada é mais caro do que o alcatrão de uma não auto-estrada? Se não for, estamos a pagar o quê? As flores que existem nalguns separadores centrais? O metal dos separadores centrais?Os primeiros carros que traziam direccção assistida ou ar condicionado eram mais caros por causa disso. Hoje todos trazem de origem. Porque deixaram de ser um luxo e passaram a ser uma necessidade básica e entendidas como normais de acordo com os nossos padrões actuais, tal como o saneamento básico ou a electricidade numa casa. Do mesmo modo, conduzir hoje numa auto-estrada não é um luxo, sendo ridículo obrigar uma pessoa a pagar por andar numa estrada cujo benefício é tão banal como o ar que se respira. O Estado não tem dinheiro para fazer face às suas responsabilidades e precisa de o ir buscar a algum lado? Percebo. Mas não me venham dizer que uma auto-estrada tem que ser paga só porque é uma auto-estrada.

4 comentários:

Alice N. disse...

Totalmente de acordo. O problema é que, neste país, o desenvolvimento ainda é considerado um luxo. Quanto a finanças, tem pouca autoridade um estado que se dá ao luxo de desperdiçar despudoradamente tantos e tantos recursos. Uma vergonha de país.

jrd disse...

Subscrevo inteiramente.
Assim que a A-23 começar a cobrar portagem, regresso ao velho itinerário, sem pressas.

Rita TSBGC disse...

Se não for muito incómodo, Vou deixar uma picardia arrogante:
- EU JULGUEI QUE A ERA BETÓNICA CAVAQUIANA TINHA UTILIZADO OS FUNDOS COMUNITÁRIOS PARA FAZER ESTRADAS....
Afinal ainda não as pagámos ?....
E os EUROS ?
Depois deixo uma questão, neste país tão pequeno, deveremos criar e duplicar equipamentos ou estimular as deslocações internas ? Confesso que não tenho resposta garantida, penso por exemplo na arte e na cultura e talvez até na educação, será que sofremos de algum bairrismo atávico que nos impede de gozar e usufruir o País como um TODO ?
As estradas servem para nos levar daqui para fora ?
Bom Dia !!! e Bom Verão !

José Ricardo Costa disse...

Uma picardia arrogante? Essa agora! Nem vi picardia, nem vi arrogância.

Já agora, não vejo que a duplicação de equipamentos e as deslocações internas tenham que surgir disjuntivamente.

JR