23 julho, 2010

PENSAMENTO MÁGICO


Há 23 anos que sou professor de Filosofia. O Ministério da Educação (ME) não sabe (pelo menos nunca me perguntou) se eu voltei a ler algum livro de filosofia desde que acabei o curso. 23 anos é muito tempo. Muita coisa se escreveu, se pensou, se discutiu. O ME não sabe se eu eu li uma linha que fosse do que se escreveu, se pensei no que foi pensado, se discuti alguma coisa do que foi discutido. Não sabe e, pelos vistos, não quer saber.
O que o ME me obriga a fazer são acções de formação na área de informática. Informática! Eu preciso é de saber informática, uns quadros mágicos e coisas assim giras para eu poder dar condignamente as minhas aulas sobre Platão, Kant, Rawls ou Popper. Eu até posso nem saber nada de Platão, Kant, Rawls ou Popper. Mas também não é preciso saber nada de Platão, Kant, Rawls ou Popper desde que eu saiba muita informática e mexer em quadros mágicos para os meus alunos poderem aprender filosofia com um professor que até pode nem saber grande coisa de filosofia.
Sem isso, nada feito, não posso progredir na carreira. Enquanto professor de filosofia posso progredir na carreira sem ler um livro de filosofia há 23 anos ou sem ser capaz de escrever um ensaio. Mas não posso progredir na carreira se não souber informática e mexer em quadros mágicos.
Isto dá que pensar, certo? Não. Só se for a vocês. A mim já só me apetecia mesmo esfregar toda a minha ira e asco na finíssima sensibilidade pedagógica e científica dos iluminados socialistas e social-democratas que, em poucas décadas, foram alegremente conseguindo dar cabo do que durante séculos foi tão difícil construir.

9 comentários:

Clau disse...

É o apogeu da geração powerpoint...

José Borges disse...

o tempora, o mores!

sim, tem razão. infelizmente. no domingo falamos ;)

Reinaldo Amarante disse...

Pois a mim, como estou no grupo dos que "devem" aposentar-se dentro de quatro anos, não serei seleccionado para frequentar as tais acções sobre os quadros mágicos. Azar do meus alunos... Além de terem um professor idoso, apanham com um analfabeto informático, quadros interactivamente falando. Não há pachorra.

Margarida disse...

http://jansenista.blogspot.com/2010/07/na-informatica-e-que-esta-dar.html

;)

...este, como outros 'entusiasmos', passará.
Pena o que se perde entretanto.
E o que não se ganha por aí fora...

Rita TSBGC disse...

Gestalt ?

José Ricardo Costa disse...

Rita, "gestalt" em que sentido? Do texto ou da imagem que a acompanha?

Rita TSBGC disse...

Era uma tentativa, falhada, de enquadrar e elevar, o aparente triunfo da forma.
Recentemente tomei conscência do inútil mundo dos PPT, da força mágica de um "presenter", dos valores dogmáticos de quem acredita que um "Planoo de sessão" que não assente apenas no método expositivo é a salvação da Educação, era um mundo que eu suspeitava existir. mas desconhecia a extensão da sua influência. Além do mais, receio bem que todos estes apóstolos dos recursos didáticos se aguentassem perante anfiteatros ou apenas turmas se pudessem recorrer apenas ao seus próprios recursos físicos, anímicos e mentais...
Aqui há uns tempos também tentei filiar algumas decisões políticas, nas áreas da Cultura e da Educação, em visões Nihilistas, no fundo tranquiliza-me acreditar que a ignorância aparente é apenas consequência de posturas filosóficas e estéticas diferentes das minhas...
Bom Dia !

José Ricardo Costa disse...

Rita, bem vista a associação desta coisa à ideia de Gestalt. Sabe, na percepção, é possível ir descarnando a pouco e pouco a realidade até ficarmos apenas com formas, estruturas, volumes, abstracções, cores. Na pintura, na escultura ou até mesmo na arquitectura pode ser fascinante. Na educação, tem sido um verdadeiro desastre.

JR

manufactura disse...

...eu não foz, nem vou fazer a dita certificação TIC... recuso-me:):):)