05 julho, 2010

PASTA DE PAPEL

Dizia-se no século passado que uma pessoa não devia morrer sem antes plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro.
Para a árvore bastaria um pedaço de terra e uma semente. Também sabíamos, desde Simone de Oliveira, que quem faz um filho fá-lo por gosto. A parte complicada ficava então para o livro. Mesmo sendo esse livro mau, uma missão apenas ao alcance de quem reunisse condições científicas, literárias e culturais para lá chegar. Ou pelo menos que soubesse escrever.
Há uns bons anos o JT teve a gentileza de publicar um livro com algumas das minhas crónicas. Senti-me envergonhado e a fazer uma triste figura. Sentia que ver o meu nome na capa de um livro seria tão disparatado como imaginar Cavaco Silva convertido ao Budismo-Zen. Para mim, as capas dos livros só faziam sentido com nomes gravados a ouro: William Shakespeare, Sá de Miranda, Miguel de Cervantes, Honoré de Balzac, Guy de Maupassant. E ficava horrorizado só de pensar que podia ir um dia a passar numa livraria e dar de caras com um livro que tivesse lá escrito José Ricardo Costa, ao lado de Baudelaire, Goethe, Rilke ou Kafka.
Por falar em Kafka, quem estava a passar por uma experiência verdadeiramente kafkiana era eu. Não a de um homem transformado em insecto mas a de um insecto transformado em escritor. Ver, numa prateleira, José Ricardo Costa ao lado de Thomas Mann seria, para mim, tão estranho como ver Gilberto Madaíl de mão dada com a Lula Pena no Bairro Alto.
Hoje, a publicação de livros alterou-se radicalmente. Deixou de ser um luxo burguês, para passar a ser tão natural como fazer o tal filho da Simone. Escrever um livro é tão natural como preencher o IRS ou ter vontade de cuspir na cara do engenheiro Sócrates.
O que há de comum em tantos livros que se publicam hoje? Serem livros que conspurcam as prateleiras das livrarias portuguesas, rivalizando com o pó e as moscas mortas. Como explicar, então, que uma pessoa que não sabe escrever ou padecendo mesmo de uma certa atrofia mental, possa escrever livros?
Antes de mais, porque dá dinheiro. Hoje escrevem-se e vendem-se livros como quem enche chouriços, precisamente porque vivemos num país de enchidos e não nos importamos de comprar qualquer farinheira literária. Ainda para mais, contrariamente aos verdadeiros enchidos, estes não são indigestos, transformando Portugal numa espécie de Reader’s Digest cultural.
Mas também a evolução social dos últimos anos e o facto de os portugueses roçarem os rabinhos pelas carteiras das escolas criou uma certa ilusão de evolução cultural e intelectual. De repente, os portugueses descobriram que, sendo europeus, teriam a obrigação de ler livros. Pronto, deu-lhes para aí! Ao verem os turistas lendo livros na praia e nas esplanadas, os portugueses acharam que, como europeus, não se podiam ficar pela Caras, livros de palavras cruzadas, horóscopos ou os artigos de João César das Neves.
Começaram então a comprar livros. Só que, para ler um bom livro, não basta ter cérebro. É também preciso saber usá-lo. Um problema nacional que os fundos comunitários não vieram resolver. Para comprar uma cozinha Miele ou um jipe para ir do T3 para o escritório, basta ter dinheiro. Para ler bons livros não basta ter dinheiro. Isso explica poderem ser vistos portugueses deitados na areia com os livros de Margarida Rebelo Pinto, uma dactilógrafa que escreve romances como se tirasse macacos do nariz.
No meio de todo o esplendor editorial que tem iluminado os actuais talhos literários, já só faltam as memórias íntimas de Vitalino Canas, um livro de Educação Sexual da autoria de Zezé Camarinha ou um livro de ciência política escrito a meias por Armando Vara e o inefável Ricardo Rodrigues.
Temos que estar preparados para o pior.

6 comentários:

Margarida disse...

Curioso..., há escassas horas estava numa Bertrand a entre-ouvir dizerem horrores da Rebelo Pinto.
Uma cliente e um dos livreiros; e este não lhe estava a fazer favor algum ao anuir à lenga-lenga crítica...
Certo é que a menina ganha rodos de massa; o resto é...o resto.

A. L. R. disse...

Eu não quero desiludilo, mas acho que o Zé Camarinha já tem um publicado.

É assim que se mede o nível cultural de um país, infelizmente.

Eu passo nas livrarias dos "Continentes e Jumbos" ( ainda ontem me aconteceu) e dou por mim a passar sem pegar em nenhum, tão "lixo" os acho. Coisa que há uns anitos atrás seria impensável. O que vale é que ainda temos boas livrarias onde podemos passar uns bons momentos.

Kamaroonis disse...

Na verdade, a "literatura" da treta não foi inventada em Portugal. O facto da mesma dar dinheiro também não é uma novidade lusa. E já Platão, que apesar de admirar um Sócrates era esperto, dizia que a multidão honra mais a riqueza do que a sabedoria; por isso é vender, vender e vender...
O "problema" actual resume-se a uma mera questão estatística, com o número de pessoas que "escrevem" (ou escrevinham, ou o raio) a aumentar (exponencialmente?) é inevitável que a quantidade de "lixo literário" acompanhe a tendência...
Dizendo isto, nada impede que as pérolas literárias continuem a aparecer, apenas estarão mergulhadas em mais lixo e ruído do que no passado.

jrd disse...

Por momentos imaginei que li: (...)poderem ser vistos portugueses deitados na areia com a Margarida Rebelo Pinto(...).
Convenhamos que era muito pior...

José Ricardo Costa disse...

Fui confirmar. O Zezé Camarinha tem, de facto, um livro publicado. Este, sim, merece.

JR

República dos Bananas disse...

Pura inveja maldosaaaaaaaaa....A Margarida Rebelo Pinto até nem é desengraçada de todo (pelas imagens da internet, diria que é um pouco escanzelada para o meu gosto); portanto, ser encontrado enrolado com ela na areia, não é assim um exercício tão desagradável quanto possa parecer, já quanto às paginas dactilografadas dela, não sei, nunca li nenhuma...
Em relação ao plausível livro do Zé-Zé Camarinha, só pode ser um livro técnico, obviamente, mas digo isto sem conhecer.
Fico realmente envergonhado é quando ouço dizer que pessoas que eu não supunha saberem escrever, porque quando se ouvem falar, ainda o fazem pior, fico envergonhado, dizia, quando essas pessoas escrevem livros???? Carolina Salgado, Cristiano Ronaldo e agora, ao que parece, até o rei do jet set (entre muitos outros)... e penso cá para comigo: "-Tu és mesmo burro!!!! então já plantaste várias árvores, Talvez sem saber como, mas lá conseguiste fazer um filho, mas de livro... não te consegue sair nada dessa cabeça oca? não tens habilidade para escrever, nem que fosse uma aventura do Texas Jack, quanto mais não fosse plagiando o gajo? e não, não tenho e fico todo envergonhadito...envergonhadito que só deixo de estar quando por exemplo divago de plágio para Pelágio e penso que às tantas, se não fosse ele, andava-mos todos a escrever ao contrário com letras redondinhas e engraçadas, mas imperceptíveis e elas andariam todas tapadinhas dos pés à cabeça e poderiam ser proibidas de escrever, dactilografar ou sequer de aprender o que quer que fosse e assim me fico, pensando que mal por mal, antes assim que pior.
E lá continuo burrito incapaz de plagiar sequer o Buck Rogers.

Mas penso...penso que posso não ter lido o livro do JT, mas li quase todas as crónicas do JR que também é C e desde sempre as apreciei, rindo-me por vezes com a mordacidade nelas contida e outras tendo que fazer um "cadito" de ginástica (numa mente algo enferrujada) para conseguir alcançar o objectivo pretendido pelo autor, o tal senhor JRC; e penso, agora com meio século que apesar de não ter conseguido plagiar sequer uma história do famoso piloto luso-britânico "Jaime Eduardo de Cock e Alvega", tive a sorte e o privilégio de, ao longo da vida, conhecer algumas pessoas excepcionais como o tal JRC.

P.S- até o post- scriptum vem a propósito....já depois de ter terminado o meu imaginativo comentário...(sem palavras), surgiu-me a ideia de plagiar uma personagem de walt disney, um tal de pinóquio, envolvido numa historieta de um qualquer centro comercial, ali para os lados de Alcochete....Ou então a imaginar Pelágio de espada na mão, desta feita a correr com todos os pinóquios deste país para fora.