15 julho, 2010

LEVEZA


George Dambier, Capucine pour elle, Boulevard de la Madelaine, 1952


"Estava sentado ao lado da noiva, e a poucos centímetros dela, no bolso do lado, estava o lenço de Irina". Ivan Turguénev, Fumo

Para falar da leveza de que é feito o romance de Turguénev, lembrei aqui o momento em que a presença física de Irina é substituída pelo roçagar do seu vestido ao longo do corrredor. Nesta passagem que agora aqui trago sucede o mesmo. Durante o encontro Irina deixara o seu lenço no bolso de Litvínov. Mais tarde, ao encontrar-se com a noiva, o sentimento de culpa é fortemente acentuado pela presença física de Irina. Presença física? Sim. Irina volta a perder os ossos, os músculos, o sangue, as vísceras, a pele, os órgãos, transformando-se num odorífero lenço. Aquele lenço é Irina e Litvínov sente aquele lenço como se fosse a própria Irina.

Só faltou Turguénev dizer que, dentro do seu bolso, o lenço estaria certamente amarrotado. Ao fim e ao cabo, tão amarrotado como a alma da própria Irina. Irina é, por essência, um ser amarrotado.

1 comentário:

C.M. disse...

Pois eu sinto um peso imenso sobre a minha alma ao contemplar esta bela fotografia - uma muher tão bela, o gesto da mão, o seu perfil... como é possível tudo desaparecer?