18 julho, 2010

LAIT COUPÉ


«Perdão! Se eu tomo uma decisão, se eu fujo, faço-o com um homem que faz isso por mim, apenas por mim, e não para não se rebaixar na opinião de uma rapariga fleumática que tem nas veias em vez de sangue água com leite, du lait coupé!» Ivan Turguénev, Fumo

Isto é Irina a falar para Litvínov. A rapariga a que se refere é Tánia, a noiva de Litvínov e que este deixou para fugir com Irina. Tánia é, de facto, uma jovem fleumática que, apesar de profundamente sentida, assumiu com grande estoicismo a ruptura do noivado. Entretanto, e já depois de Tánia ter partido para nunca mais ver noivo, este recebe uma carta de Irina na qual o informa da sua decisão de não deixar o marido. Litvínov fica só. Vários anos depois, Litvínov, solitário, sabe do paradeiro de Tánia e mostra interesse em encontrá-la. Ela aceita. Quando, na carruagem, começa a aproximar-se da casa de Tánia, no meio do campo, surge este diálogo com o cocheiro:

«Conhece as senhoras Chestovas?» [Tánia vivia com uma tia]
«As Chestovas? Então não havia de conhecer! Boas senhoras, não vale a pena dizer! Tratam os nossos irmãos. É verdade. Parecem doutoras. Gente de todas as terras à volta vão ter com elas. É assim, vêm de toda a parte. Se, por exemplo, alguém está doente ou se corta, ou qualquer coisa, vai logo ter com elas e elas dão-lhe alguma poção, ou pós, ou gesso - e pronto, ajuda. E não querem pagamento: não aceitamos, dizem elas, não fazemos isto por dinheiro. E começaram também uma escola...Bem, é assim!»

Turguénev está todo nestas palavras do cocheiro. A rapariga com lait coupé nas veias, a mulher dócil e tranquila encontrou a vida igualmente dócil e tranquila que procurava. Irina, pelo contrário, uma mulher con sangue espesso, quente e bem vermelho correndo pelas veias, tal como Bazarov de Pais e Filhos, continuou a seguir o rasto da infelicidade: uma mulher obstinada, excessiva e preocupada apenas com os seus interesses e fixações.
Também Isaiah Berlin, para quem Turguénev era o escritor preferido e ao qual dedicou um ensaio, está todo aqui. Berlin conta várias vezes que um dos acontecimentos que mais o marcaram foi, quando era criança, após a revolução de 1917, antes de ir com a família para Londres, ter assistido ao assassinato brutal de um polícia por um grupo de pessoas encolerizadas. Mas fala também do horror que sentiu, em 1972, numa viagem ao Irão, ao assistir a uma procissão de homens religiosos com expressões fanáticas à volta do túmulo de um iman. Diz que nunca viu nada de tão assustador desde a Revolução Russa.
Grande parte do pensamento filosófico de Berlin funciona como uma espécie de quadrifármaco epicurista que visa proteger a alma humana dos seus excessos, doenças, perturbações: o fanatismo, o radicalismo, a crença em ideias utópicas, o excesso de ambição, uma fé desmesurada no poder da ciência para construir a felicidade humana, o nacionalismo, a crença na possibilidade de reduzir a diversidada humana, seja cultural ou individual, a um único padrão.
Tánia, a Tánia fleumática e com lait coupé correndo pelas veias é certamente uma heroína berliniana.

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