10 julho, 2010

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO CABELO


Irina estava sentada a uma pequena mesa e bordava, quando Potúgin e Litvínov entraram. Pôs rapidamente o trabalho de lado, afastou a mesinha, levantou-se; uma expressão de verdadeiro prazer subiu-lhe ao rosto. Trazia um vestido matinal, com um colarinho fechado; as linhas belas dos seus ombros e braços apareciam através do tecido fino; o cabelo, descuidamente torcido num nó, caía-lhe sobre o pescoço delicado. Irina deitou um olhar a Potúgin, murmurou «Merci» e, estendendo a mão a Litvínov, censurou-o amavelmente por se ter esquecido. « E isto sendo um velho amigo amigo», acrescentou.
Ivan Turguénev, Fumo

Há dias, neste post, recorri a uma passagem deste romance de Turguénev como ponto de partida para explicar o que pode ser um texto impressionista. Desta vez, entretanto, sirvo-me dele para uma abordagem maneirista. De facto, mal acabei de ler esta passagem foi todo um universo maneirista que emergiu na minha cabeça.
Não é tanto porque "as linhas belas dos seus ombros e braços apareciam através do tecido fino", passagem a fazer lembrar o célebre mamilo que irrompe na Madona do Pescoço Comprido, de Parmigianino, mamilo que molda a prega do vestido. O que é absolutamente maneirista aqui será mesmo o cabelo: "descuidadamente torcido num nó, caía-lhe sobre o pescoço delicado".
Há, nesta frase, uma mistura fantástica entre a ordem e a desordem, a rigidez e a espontaneidade, o artificial e o natural. Tudo no mesmo plano. Por um lado, temos o nó. O nó implica um artifício, uma construção manual, uma ordem. Mas, por outro lado, há um sentido de leveza, de espontaneidade, de uma queda suave sobre um pescoço delicado como se fosse a pena de uma ave, caindo lentamente sobre o canteiro de um jardim. É um nó mas um nó desordenado. Admito que possa exagerar na comparação mas há qualquer coisa nesta imagem que me faz lembrar a posição dos corpos em Vénus, Cupido e as Paixões do Amor, de Bronzino. Ou a posição dos corpos em o Rapto da Sabina ou no Centauro de Giambologna. Uma sensação de enovelamento mas um falso enovelamento, um enovelamento que nunca se chega a consolidar.
Mas há mais. E o que falta serve precisamente para explicar a pintura que ilustra este post, pintura de Jean Cousin, o Velho, na qual vemos uma mulher duplamente apresentada como Eva e Pandora.
Para entendermos bem esta passagem de Turgénev, teremos que recuar no tempo. Irina e Litvínov tinham estado noivos dez anos atrás. Entretanto, abruptamente, friamente, implacavelmente, Irina rompe o noivado para um casamento de conveniência com um homem de elevada posição social. O noivo fica destroçado.
Dez anos depois, Litvínov está noivo de uma rapariga, que adora. Litvínov encontra-se em Baden-Baden, numa estância de férias frequentada pela alta sociedade russa mas também por burgueses e intelectuais. Irina também, com o seu marido, um militar de alta patente e rodeada de gente mesquinha, fútil e intelectualmente nula. Irina sabe que Litvínov se encontra em Baden-Baden e usa Potúgin como mensageiro para o convidar para uma visita. O texto que transcrevi relata a chegada dos dois a sua casa.
Só sabendo o que vem depois podemos melhor compreender o que acabámos de ler. Irina não é feliz com o marido e não gosta do mundo onde vive. A partir do momento em que sabe de Litvínov o seu coração entra em sobressalto. Litvínov, quando sabe do convite, não fica entusiasmado. Mas vai. Mais por delicadeza e curiosidade. Sente-se seguro na sua relação com a noiva. Já nada sente por Irina. Por que motivo, afinal, não haveria de ir? Mas não está à vontade, daí não ter apertado a mão de Irina, esquecimento que ela graciosamente lamenta.
Entretanto, depois desta visita, continuam a encontrar-se em ocasiões meramente sociais e formais. Irina revela ostensivamente algum interesse em reatar uma relação amorosa com o antigo noivo? Não. Nada. Limita-se a manifestar infelicidade e um normal desejo em reatar uma velha amizade. Tudo normal, portanto. Só que Litvínov começa a vacilar. Sente-se perturbado, confuso, com as suas certezas sentimentais em ousadas piruetas.
Claro. Mas como foi preciso o leitor demorar tanto tempo para começar a entender isto? Turgénev havia explicado tudo: "o cabelo, descuidadamente torcido num nó, caía-lhe sobre o pescoço delicado"? Nem sei como dizer isto. Será que estamos perante um nó disfarçado por um descuido meramente aparente? Ou, pelo contrário trata-se de um descuido meramente aparente que anuncia um nó? Ou serão as duas coisas ao mesmo tempo?
Também a mulher pintada por Jean Cousin é Eva e Pandora ao mesmo tempo.

1 comentário:

Alice N. disse...

Belíssimo!!