22 julho, 2010

FONTE SECA


Retomo novamente a questão deste post mas agora sob um outro prisma: um filme. O Último Tango em Paris. O filme estreou em Portugal com o mítico estatuto de filme "Interdito a menores de 18 anos" e com "Cenas Eventualmente Chocantes". Um filme com esse estatuto era sucesso garantido. E o “Último Tango” era o filme dos filmes com esse estatuto.
Andava nas bocas do mundo. Havia homens que o viam às escondidas, senhoras que ficavam vermelhas só de ouvirem falar nele, era conversa de rua e quase sempre pelos piores motivos. A célebre “cena da manteiga” era motivo para os gracejos e insinuações mais grosseiras.
De um ponto de vista sociológico era este o impacto do filme. Impacto que se foi perdendo na espuma dos anos. Vamos agora imaginar que, daqui a 100 anos, um historiador o via numa cinemateca. Entretanto, conseguiu ter acesso a um jornal de 1974 no qual um crítico de cinema, (um cinéfilo, portanto) fazia um grande elogio ao filme. Esse seria mesmo o único registo existente. Imaginemos que ele queria compreender o impacto sociológico do filme, a mentalidade das pessoas em 1974, os seus gostos, valores morais, o sentimento de pudor nesse tempo, etc. Neste caso, sendo a crítica a sua única fonte, a sua visão iria ser completamente filtrada pelo olhar do crítico.
Substituamos agora o filme pela Apologia de Sócrates, de Platão, pelos evangelhos ou pela Divina Comédia. Como podemos conhecer o impacto que teria cada obra no seu tempo? Nós conhecemos o seu impacto, sim, mas através do olhar de pessoas que estavam muito longe de se identificarem com o homem comum.
Vou ainda mais longe. De que falamos nós quando falamos em Grécia Antiga? Ou Idade Média? E Antigo Egipto? Ou quando falamos no século I depois de Cristo (100 anos)? Pensamos em séculos como se se tratasse de um ano. E mesmo que dividamos esses períodos em sub-períodos será sempre uma abusiva abstracção.
Se um jovem português nascido em 1974 visse o filme em 1990, o seu impacto seria completamente diferente, sem todo aquele ruído de 1974. Veria o filme pelo filme e um filme eroticamente bem mais leve do que outros que já viu. Via, gostava ou não gostava e pronto.
Em 1974 eu tinha 13 anos e lembro-me bem do seu impacto. Mas a primeira vez que o vi foi no Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras de Lisboa e gostei muito de o ver. E tive dificuldade em compreender o seu impacto de 1974. Mas compreendi pois sabia bem como era o Portugal de então. Mas não consegui ter uma visão pura do filme. Vi-o com todo o ruído de 1974 a atordoar-me os ouvidos. Hoje, vê-lo-ia como outro filme qualquer. Mas se pensar numa pessoa que tenha actualmente 60 anos e que nunca o tivesse chegado a ver (ou que tivesse mesmo visto), a sua representação mental do filme seria completamente diferente da minha, independentemente do grau de cinefilia de cada um um.
Ora, historicamente, estas subjectividades, estas variações sociológicas são impossíveis de captar por um historiador. O historiador jamais poderá captar objectivamente tais processos internos. Mais, o simples facto de existirem fontes pode ser prejudicial. Veja-se o caso do crítico que iria induzir o historiador completamente em erro. E não haverá cronistas a partir dos quais a História é construída que poderão ter o mesmo efeito falacioso do crítico de cinema?
Sabemos lá nós o que era viver na Grécia Antiga ou no século XIV em Portugal. As fontes históricas também podem secar.

5 comentários:

sLx disse...

Um historiador não pode querer captar a essência de uma época porque isso é coisa que não existe. Nunca saberemos o que era a Grécia Antiga, mas nem os gregos o sabiam. E uma das razões é que nunca existiu *uma* Grécia Antiga. Um historiador pode (deve?) criar narrativas que tenham correlação com os factos passados -- de acordo com as evidências que recolheu -- estando estas abertas a confirmação/refutação, mas nunca fará mais do que isso (nem um jornalista, não precisamos sequer ir para o passado).

Há um livro muito interessante sobre este assunto: "Historian's Fallacies", de David Hackett Fisher (1970).

Um abraço,

João Pedro

Margarida disse...

E a interdisciplinaridade? E a noção (mesmo que subconsciente) do que alega?
Sabemos que a conclusão de tudo o que não seja estritamente científico (i.e., com provas 'provadas' - mesmo que possam vir a ser contraditadas mais tarde, devido uma novidade não considerada então) carece de complementaridade, de dúvida (positiva), de vozes pluri-disciplinares, para melhor se compreender o que se lê ou aprecia num qualquer contexto.
Baseio isto no simples facto de me recordar bem das interrogações instantâneas quando, ainda miúda, comecei a ler livros de História.
Aquilo era para 'saber', para dizer em voz alta na aula (quando inquirida pela senhora professora)e escrever nos cadernos e nos exames, mas era uma 'história' do que se tinha passado. Haveriam outros olhares. Mesmo de bibe e laçarotes, eu 'sabia' isso...
O mesmo sucederá com a maior parte de nós.
Ou não?...
:)

Rita TSBGC disse...

Quando era miúda tinha a mania de fabricar caixinhas para os historiadores, eram caixas de cartão onde colocava objectos do quotidiano ( bilhetes de autocarro, molas de roupa, bilhetes de espectáculos, rótulos de embalagens, k7s, etc..) mas sempre acompanhados por uma memória descritiva destinada a quem no futuro encontrasse a dita caixinha, era para mim um angústia imaginar as descobertas arqueológicas no tempo depois do nosso, a produção de objectos é tal que será sempre difícil saber o que foi para que serviria ...
Certas áreas do conhecimento ganharão muito quando se livrarem da condição não-humana, a pretensa isenção/ imparcialidade é responsável por muitos dogmas. nomeadamente pela forma É sempre condicionada a forma como se olha sempre o passado.Condicionada até pela vida do observador.
O próprio objecto de que fala, terá sido percepcionado de mil formas, à época da sua exibição em Portugal, basta considerar o tecido social, que nunca é homogéneo, para aceitarmos a condição humana da História. Quantas batalhas foram, ao lngo do tempo, relatadas como vitórias para ambos os lados ?
Esta é mesmo a essência que torna a História tão sedutora, olhar através de olhos que não são nossos e apropriarmo-nos desse olhar transformando-o!!!

Reinaldo Amarante disse...

Embora sempre tivesse gostado de História, a minha formação não é essa. É curioso como nunca tinha pensado nisso. Com 60 anos, aprendi a História baseada na cronologia dos factos e quantas vezes truncada segundo as ideias do sistema vigente, já para não falar na adulteração dos factos. Como será que um investigador do futuro irá lidar com esses mesmos dados, já que o auto-de-fé pós 25 de de Abril, felizmente, não conseguiu acabar com todos os documentos do antigo regime? Penso que terá de cruzar dados de origens diferentes, embora isso nunca lhe dê a certeza absoluta nas conclusões. Talvez seja aí que resida o grande desafio de quem investiga nesse campo.

C.M. disse...

Constatei agora que sou um pouco mais velho que Vexa - tenho 54 anos - e vi o filme no Cinema São Jorge, ali na Avenida da Liberdade. Lembro-me que comprei o bilhete na rua, a um tipo qualquer que ali os estava a vender bem mais caros que no próprio cinema! tal era o frenesim á volta do filme!

Afinal tanto barulho para nada... lembro-me do Marlon Brando falar do excesso de volume da sua próstata, não sei se antes ou depois da cena da manteiga... e... depois? Nada que não se pudesse ver com naturalidade. Mas à época parece-me que andava tudo doido e embriagado com a liberdade, perdão, libertinagem, e com o sexo, quando afinal este aliás era muito bem vivido antes de 1974...