08 julho, 2010

ESPANHA-HOLANDA

O post anterior merece uma explicação. Tratou-se de um enigma muito, digamos, bruegeliano, visto o pintor flamengo gostar de enigmas, adivinhas e símbolos.
No tempo do Bruegel, os Países Baixos estavam sob ocupação espanhola. O símbolo mais forte da opressão espanhola era o tenebroso duque de Alba.
Há uma tese segundo a qual, com aqueles dois quadros, Bruegel critica a situação política do seu país, projectando-a em duas realidades bíblicas. Vejamos.

Neste quadro assistimos ao massacre dos inocentes ordenado pelo rei Herodes tal como nos é descrito na Sagrada Escritura. Porém, neste caso, os cavaleiros que vigiam o massacre são espanhóis. E a figura vestida de negro, o duque de Alba. Ou seja, este quadro representa o massacre espanhol sobre o povo flamengo, um símbolo do poder espanhol sobre os frágeis holandeses.
E no que diz respeito a este quadro? A Conversão de S. Paulo.


S. Paulo foi um feroz perseguidor de cristãos. Até ao momento em que, na estrada de Damasco, tem uma revelação e se converte ao cristianismo, tornando-se mesmo, de certo modo, o grande engenheiro do cristianismo. Mais uma vez, e de um modo genial, Bruegel joga com a situação. Projecta a cena num contexto europeu do seu tempo. Quem será então a figura de negro em cima do cavalo, assistindo à conversão do santo? Mais uma vez, o tenebroso duque de Alba. Parece, pois, que Bruegel quer obrigar o terrível duque a assistir à conversão espiritual do futuro santo, na esperança de que também ele possa sofrer um processo de conversão e deixar os holandeses em paz, voltando para a sua terra. E, a acontecer isso, a reacção humilde do duque representaria uma grande vitória para os holandeses.
E, pronto, eis o enigma decifrado.

5 comentários:

Alice N. disse...

Fantástico - a explicação dos quadros e a associação ao jogo.

Kamaroonis disse...

Mais um banho de sabedoria! :)

Uma humilde e respeitosa vénia.
E um sincero obrigado por mais uma (espécie de) revelação.

José Alberto

José Ricardo Costa disse...

Caro José Alberto, qual banho de sabedoria! Os livros estão à nossa frente, basta abri-los.

Abraço,
JR

Kamaroonis disse...

É verdade que sim, mas eles são muitos e o (meu) tempo para os abrir (e "saborear" devidamente) a todos é por comparação muito pouco...

Abraço,
José Alberto

Margarida disse...

"(...) qual banho de sabedoria! Os livros estão à nossa frente, basta abri-los."

Não. Não basta, e sabe-o.
É preciso domar o instinto da fuga, refrear o medo da descoberta, educar a linha de pensamento, traduzir as marés emocionais, condensar os sonhos e pintar o quadro a partir da paleta mais homogénea.
Não basta o mundo à disposição; é preciso, além da sensibilidade, um certo dom e alguma erudição.