09 julho, 2010

DESORDEM DOS ENGENHEIROS

Mestre de Flora, Nascimento de Cupido

Já foi há muito tempo mas tenho ainda a vaga ideia de, quando era novo, ter alguma tendência para Cupido. Qual engenheiro de corações gostava de estimular namoricos, juntar A com B e C com D, E com F.
Entretanto, ao ler hoje a secção de anúncios do Jornal Torrejano, reacendi a trigonometria amorosa dos velhos tempos perante três anúncios. Um de uma senhora, os outros dois, de homens.

O da senhora diz assim: "Senhora, 48 anos, divorciada, deseja conhecer cavalheiro, sincero, honesto, para futuro compromisso".

Passemos agora aos dos homens.

1. "Cavalheiro de 50 anos, solteiro, sincero, meigo, deseja conhecer senhora para vida a dois".

2. "Senhor divorciado, 51 anos, ex-emigrante, com casa própria e carro, procura senhora séria, honesta e livre, dos 37 aos 50 anos, não importa a nacionalidade".

Dei, pois, por mim cupidamente a cogitar sobre qual destes dois homens poderia satisfazer as necessidades amorosas da senhora. O primeiro senhor, o cavalheiro, apresenta logo à partida um trunfo decisivo. A senhora pede um cavalheiro sincero e, bingo!, o primeiro senhor para além de ser mesmo um cavalheiro é um cavalheiro sincero. Parecia mesmo que estava a ouvi-la. Eu, por exemplo, não serviria para aquela senhora. Apesar de ser um homem sincero, nunca na vida me senti cavalheiro, nem sequer nas quermesses das festas de aldeia.
Depois, assume, é um homem meigo e eu penso que a meiguice não é qualidade humana para uma senhora desprezar. Mas a senhora não exige a meiguice num homem. A senhora, para além de exigir uma minima moralia (sinceridade, honestidade), tem como preocupação fundamental a ideia de compromisso. Ou seja, eu não sendo psicólogo, percebo que a senhora valoriza a estabilidade, a segurança, a ordem. E o que é que o primeiro senhor diz sobre isso? Nada, zero! Ok, é meigo, sim senhor. Mas a meiguice não mata a fome, não paga a renda da casa, o Tide para lavar a roupa e, já agora, uma roupita de vez em quando.
Vem então o segundo senhor. Não é um cavalheiro mas não deixa de ser um senhor. Não é um gajo qualquer. Não é meigo, pronto. Mas também não se pode ter tudo. Por outro lado, não apresenta uma minima moralia (será honesto? Sincero? Andará com outras mulheres? Bebe? Bate na mulher quando o Benfica perde?). Em suma, à partida, não é homem para nele se confiar.
Mas atenção! Ex-emigrante? Alguns 30 anos a trabalhar no duro em França ou na Alemanha? Hummm, cá para mim a continha no banco não deve estar má de todo. Casa própria? Sim, casa própria! Sei lá se o outro tem casa própria. Até pode estar a viver numa pensão onde só mudam os lençóis de mês a mês. E carro! Um carro, nos dias que correm, já não é um luxo, é mesmo uma necessidade. A pessoa quer ir passear à Nazaré e tem que ir na camioneta da carreira? Quer ir ao Intermarché fazer as compras do mês e tem que vir carregada que nem uma mula? Não, não, um carrinho dá muito jeito e o outro nada diz sobre isso. Mas calma. O outro é solteiro, este é divorciado. Sei lá se tem 4 ou 5 filhos do anterior casamento a quem dar pensão de alimentos. Anterior? E se forem anteriores, com mais filhos metidos pelo meio? Pois, lá se vai a reforma de França, os vestidinhos e o passeio à Nazaré.
Mas, depois, volto a ficar confuso. É verdade que o senhor divorciado nada diz a respeito dos seus valores morais. Mas nestes tempos de educação para a cidadania diz uma coisa que é sagrada: não importa a nacionalidade da senhora, talvez até pelo facto de ser um ex-emigrante e se calhar ter sentido na pele o chauvisnismo de franceses rabujentos ou de alemães de bigodinho que acham que a Baviera é para os bávaros. Ora isso é uma grande qualidade num homem e próprio de um homem honrado. Tanto pode vir uma sueca como uma guineense, uma espanhola guapa como uma turca de cabeça tapada. São valores modernos, que respiram multiculturalismo por todos os poros. Será, certamente, um cidadão do mundo e não um pacóvio qualquer que anda com a bandeira da selecção no vidro do carro.
Estou baralhado. Quem devo escolher? Estou há horas nisto e não consigo encontrar uma saída para este autêntico labiríntico. Uma boa solução seria uma relação poligâmica. Juntar-se-ia a meiguice e sinceridade de um com a casa e o carro do outro. Mas a poligamia é proibida em Portugal. Não dá.
Que desespero. Sinto-me mesmo sem saída. Só posso mesmo concluir uma coisa. Ainda tenho mais 20 anos como professor à minha frente, mas, como engenheiro de corações, já deveria há muito ter-me reformado.

5 comentários:

lira disse...

Muito bom o desenrolar de pensamentos à flor da pena. Os ditos "meigos" cheiram-me sempre a totós. Eu cá ia pelo ex-emigrante, mais despachado e terra-a-terra.

Alice N. disse...

:))

Hilariante! Diverti-me a valer!

Margarida disse...

Triste, o mote. As pessoas sós são imensas e disfarçam mal.
Poder-se-ia pensar que são brincadeiras (existem desde sempre, na 'Crónica Feminina' eram magalas boçais e sopeiras arrastadas da província - que as senhoras distraiam-se com os cabeleireiros e fornecedores de arranjos florais), hoje é o limite doloroso da exposição de carnes a preço da chuva para instantes a esquecer.
A solidão mata.
Aquela que bóia no interior à míngua de gestos (mais do que palavras), a que se rende exangue à procissão dos ponteiros que nunca estão parados (não é por não darmos corda ou retirarmos a pilha que o tempo se suspende. O tempo é o grande traidor de corações.
A solidão sufoca devagarinho até ao estertor final.
Procurar uma presença talvez seja o último acto de desespero.
E não sei o que é pior - de finarmos em silêncio, se lançarmos garrafas ao mar.
Por isso, professor, continue nessa missão engenheiral - una almas, os corações agradecer-lhe-ão.
Eternamente, mesmo que seja breve, o élan.
(tudo é breve, na realidade, a começar pelas ilusões)

República dos Bananas disse...

"...A solidão mata...." acredito que sim, mas o que é realmente a solidão? falta de companhia? isolamento? incompreensão? E será que não se pode estar só, com muita gente à volta? E quem está só por não se rever em nada, nem na sociedade, nem nas pessoas, sofre de solidão?
Bom, na verdade não sei, nem pretendo ter respostas mas como sou pouco dotado para a filosofia, não me admiro. No entanto cada vez mais dou comigo a pensar que qualquer dia só falo para mim mesmo...e se o fizer, não me parece que vá morrer de solidão...e tenho a certeza de uma coisa; nunca vou pôr um anúncio no jornal.

joao alfaro disse...

Sei que hoje vou recordar este texto, que me deixou sorridente, embora reconheça que a fatalidade mora nos que buscam a felicidade num anúncio de jornal.