11 julho, 2010

DA INEVITABILIDADE DO INFERNO

Sempre me habituei a considerar a privacidade como um reduto do sagrado. Parece-me, pois, importante resguardar do olhar do outro o que lhe seja alheio. Não falar alto em público, não ter conversas íntimas próximo de ouvidos estranhos. E o inverso também foi sempre a minha prática, nem levanto ouvidos para a conversa do lado, nem atento demasiado na passagem dos outros. Guardo desde sempre o hábito de, quando instada em público por um telemóvel que não desarma, responder cripticamente e quedar-me por um “Eu depois ligo.”

Mas os outros não parecem ter pudores semelhantes aos meus. Interrompem-me a manhã e a leitura do jornal com conversas desbragadas, ouço, por mais que o não queira, os planos para o dia, sou levada a assistir ao desenrolar de conversas como espectadora forçada num teatro que não escolhi.

Gosto do ruído aveludado dos cafés, do ondular das conversas em surdina, imperceptíveis, gosto do mistério dos outros. Das vidas alheias, não, obrigada.

3 comentários:

Reinaldo Amarante disse...

Terei em atenção este post quando tiver de te telefonar. De resto, concordo contigo e foi por essas e outras que tenho de aceitar que há pessoas que têm sistematicamente o seu telemóvel desligado, números que não aparecem na lista e números para um grupo restrito de amigos.

de sousa disse...

Leio este post, sentado numa esplanada de praia, enquanto sou víctima de uma família numerosamente ruídosa.
É o factor vuvuzela que tanto agrada aos portugas.
Gosto do burburinho(é assim que se escreve, não é?) e do barulho miudinho do tinir das chávenas, dos esqueiros a acender, das coisas "piquenas".

Margarida disse...

Nunca o diria melhor.
Absolutamente sintonizada com o 'desabafo'; a falta de pudor, respeito e urbanidade são gritantes exemplos da "descivilização" crescente.