20 julho, 2010

C' ERA UNA VOLTA UN DOLCE STIL NUOVO


Se os deuses lhe tivessem dado a imortalidade, Petrarca faria hoje 706 anos. Andaria, como Pier Francesco degli Orsini na eternidade de Bomarzo, a remexer em velhos textos latinos, em escritos de Cícero, julgados perdidos, enquanto por debaixo do balcão do palácio os dias corriam ao encontro das noites e os séculos cresciam.
Dante, Cavalcanti e Frescobaldi já tinha aberto caminho naquela Florença onde a Piazza della Signoria ainda tinha horas quietas, bem longe da algazarra ambulante dos vendedores ou dos enxames de japoneses junto à porta do Baptistério. A poesia trovadoresca perde com eles a clausura das palavras e torna-se ligeira e suave como a figura feminina se desprende da terra e a altezza di ingegno impõe uma aristocracia do espírito.
Petrarca viaja sem cessar, percorre a rota da Europa culta, traz para sempre de Avignon a nítida imagem de Laura e uma inquietação infindável que corre ao longe dos muitos sonetos do Canzionere. Procura nas raízes do pensamento latino os fundamentos de uma moral humanista, sobre eles medita e escreve na solidão introspectiva a que se entrega.
Os deuses não lhe deram a imortalidade. Fez ontem 636 que o encontraram morto, a cabeça pousada sobre um manuscrito de Virgílio.

2 comentários:

Margarida disse...

O texto merecia um comentário ao seu nível, que me sinto incapaz de produzir, helás!
Mas uma coisa foi instintiva: "olha! uma imagem!"
:)
Cedência, querida V.?

Ivone Costa disse...

Um bocadinho, Margarida, um bocadinho. Às vezes, é necessário.