03 junho, 2010

A OBRA DE ARTE COMO OBRA ESTÉTICA



A morte, esta semana, de Louise Bourgeois, levou-me novamente a reflectir na minha relação cada vez mais conservadora com a arte. Ao falar em conservadorismo não estou a estabelecer uma separação entre arte clássica (renascimento, barroco, maneirismo, romantismo, etc.) e arte moderna ou contemporânea (impressionismo, expressionismo, etc.). Refiro-me antes a uma visão da arte segundo a qual o elemento estético continua a ser absolutamente central, não sendo subjugado por conteúdos de natureza intelectual ou formal.
Começo por esclarecer que isto não significa um desejo meu de reduzir a obra de arte ao conceito de belo. Há obras que não são belas mas que são grandes obras de arte. Nos quadros de Picasso não existe a beleza como critério e, no entanto, são grandes obras de arte. Poderei ser conservador mas não sou conservador a esse ponto. Quero lembrar ainda que não se trata aqui de um discurso normativo a respeito do que deve ser uma obra de arte mas da minha exclusiva posição.
Quando digo que o elemento estético deverá ser central, significa que a obra de arte deverá ser primordialmente dirigida aos sentidos. Usufruir de uma obra de arte significa usufrui-la através dos sentidos. Ora, quer isto dizer que devemos olhar para um quadro de Ticiano como se bebêssemos vinho ou passássemos a mão por uma superfície aveludada? Não. A obra de arte, para além de ser usufruída esteticamente, pede para ser pensada. Não apenas no que dirá respeito ao seu processo criativo mas ainda o que envolve o seu conteúdo: a sua história, personagens, o significado da cor, elementos simbólicos, etc.
Ora, o que muitas vezes se passa na arte contemporânea, sejam pinturas, esculturas ou instalações, é a transformação da arte em puro exercício intelectual, a arte como jogo, a arte como charada, a arte como expressão do mundo pessoal do artista como se, em vez de estar deitado num divã perante um psicanalista, estivesse num ateliê invocando os seus fantasmas.
Veja-se, por exemplo, este trabalho de Louise Bourgeois. Longe de mim rejeitar a ideia de que poderá ser interessante fazer uma interpretação do mesmo. Até podemos pedir a meia-dúzia de crianças para o fazer e admito que os resultados poderão ser mesmo surpreendentes. Mas poderei fazê-lo igualmente com um teste projectivo, não significando isso que o teste projectivo tenha valor artístico. O facto de um trabalho ser interpretável não lhe confere necessariamente esse estatuto. Há muita coisa que é interpretável e não é artística, o que não significa que uma coisa artística não possa, como afirmei anteriormente, ser interpretada.
Não nego legitimidade a esse tipo de exercício ou de jogo. Considero mesmo interessante a possibilidade de analisar este trabalho da artista. Mas considero um trabalho esteticamente pobre. Não me faz ter vontade de me meter num avião e ir vê-lo ao museu como seria capaz de o fazer para poder usufruir de dezenas de pintores clássicos ou modernos, começando em Giotto e acabando em Rothko ou Tapies. Porquê? Porque há perante os seus trabalhos um prazer de ver que não é subjugado pela necessidade de pensar. Eu olho para um quadro de Matisse e vejo cor, cor, cor. Matisse é cor. Poderá certamente ser feita uma tese académica sobre a pintura de Matisse. É possível pensar sobre Matisse. Mas isso não anula a cor como essência da sua pintura.
O que se passa com os trabalhos de Louise Bourgeois é apenas um desejo de tentar entender o que pretende a artista dizer com eles. Posso até achar interessante a sua linguagem, os elementos plásticos, a sua retórica artística. Ou seja, assumo que até poderei entrar num museu e gostar do exercício de olhar para os seus trabalhos, como já me tem acontecido em exposições e instalações. E enquanto elemento sensível ou material, a obra de arte terá sempre, forçosamente, um carácter estético. Mas será estético num sentido muito amplo e não num sentido restrito. Que, para mim, não faz dela uma grande obra mas apenas uma pequena e pobre obra.
Ok, poderei estar a ficar velho. Mas é assim que me dá gosto envelhecer.

3 comentários:

Ana Paula Sena disse...

José Ricardo: acho que eu também não ia a correr num avião para ver este trabalho :)

Gostei de o ler. Na verdade, embora aprecie alguma arte mais conceptual, considero o elemento estético o mais relevante.

Um abraço.

addiragram disse...

Caro Amigo,

gostei de ler o que escreveu e acho que o percebi Contudo....acho também que somos mesmo diferentes.Quando olhei o trabalho que publicou ( que não conhecia) ele fez-me sonhar, liguei-o, de imediato,a poemas, a ideias, e só por isso fazia a viagem...
Outros trabalhos desta natureza não me tocam ou surpreendem da mesma maneira que um Ticiano, mas têm o fantástico dom de provocar, por vezes, um pequeno "abalo telúrico", de reverter tudo o que é esperado,e, por isso mesmo, de provocar "transformações" não tanto intelectuais, mas mais emocionais.Foi o que senti da última vez que estive no Guggenheim de Bilbao. Para mim estas diferentes concepções são formas distintas de nos surpreender. E quanto à analogia com uma prova projectiva...
há uma grande distância.Qualquer criador "projecta-se", mas não cegamente. Ele transforma sempre as suas "projecções", o que não acontece com quem faz uma prova projectiva. Eça em tudo o que escreveu "projectou-se", mas também não se projectou...
Somos mesmo diferentes. :))

Arte em casca de ovos disse...

Gostei de ler, saber escrever tambem é uma arte.

Carlos