04 junho, 2010

O RISO DA MULHER PAQUISTANESA




O pequeno vídeo que pode ver aqui, motivou-me a seguinte reflexão.

Há animais dos quais habitualmente gostamos mais do que outros e cujo sofrimento nos choca mais do que de outros. Porquê? Porque gostamos mais deles. E gostamos deles porque os antropomorfizamos mais, são mais bonitos e despertam-nos mais ternura.
Ora, com as pessoas passa-se precisamente a mesma coisa. Uma das razões pelas quais o sofrimento de povos do Terceiro-Mundo choca menos se comparado com o sofrimento de pessoas do nosso mundo, pode passar também por aspectos de natureza física. Ninguém normal sentirá indiferença perante uma criança sudanesa que morre à fome. Mas se se tratar de uma criança loira de olhos azuis, o seu sofrimento toca-nos mais. Porquê? Poderá não ser só isso mas tem igualmente que ver com a morfologia facial, com a cor da pele, as diferentes expressões que vão sendo moldadas por uma cultura e vidas sujeitas a tremendas dificuldades.
O que me despertou interesse nesta entrevista nem foi tanto o que ela disse ou até a sua beleza. Ou o seu inglês perfeitamente fluido. Foi o seu sorriso. É um sorriso belíssimo, claro. Mas, apesar de paquistanesa e de até ter nascido num covil chamado Cabul, é um sorriso europeu, um sorriso ocidental, um sorriso dos nossos. Se esta rapariga sofrer, se o seu sorriso for transformado numa expressão de sofrimento e o seu olhar perder brilho, nós iremos entender isso como se se passasse com um dos nossos.
Se todas as mulheres paquistanesas, afegãs, sudanesas ou nigerianas tivessem o sorriso de Fatima Bhutto, de certeza que as regras da política internacional para o terceiro-mundo seriam outras.

6 comentários:

jrd disse...

Lindo o sorriso, expressivo o olhar e inteligente o discurso.
No "Mundo" de onde vêm, haverá, certamente, muitos mais, só que pouco apreciados.

Margarida disse...

Que coincidência espantosa!
Ao início da tarde pensava (de forma errática e superficial) sobre isto, ao ouvir na sala ao lado as actualizações noticiosas sobre o incêndio que ontem deflagrou no centro histórico de Daca, no Bangladesh, com mais de 100 mortos e à volta de 150 feridos.
Permaneci onde estava, apenas a ouvir, mas pensei distintamente que se fosse na Europa ou na ('minha') América, já estaria colada ao televisor, em ânsias de irmandade...
Que pavorosa injustiça...
Todos os sucessivos eventos trágicos além de um dado meridiano tornam-se quase notícia de rodapé, algo que ouvimos e lamentamos, mas não com a intensidade com que se vive tal mais de perto; num contexto mais perturbadoramente "familiar"...
Fica-se um bocadinho nauseado com esta constatação, não é?
E nem há sorrisos que nos valham.

Rita TSBGC disse...

Sempre que passo aqui apetece ouvir e dizer, nalguns textos nem me atrevo, por serem tão fortes e escritos em palavras brancas-linho, não ouso intrometer-me...
Mas ficaram dois debaixo de pensamento, o anterior, sobre a importãncia da estética na arte e agora este.
Sobre o anterior remeto para uma peça da Marina Abramovic " Art must be beautiful".
Sobre o rosto da pobreza assinalo que o reconhecimento dos traços que nos aproximam dos outros provoca compaixão e medo ou medo por compaixão ou compaixão por medo.
Quer dizer, se for muito outro e não se assemelhar a nós ´´e mais seguro e não entrará pela nossa casa adentro, se for muito nós, se se parecer connosco, assusta pois destrói as nossas ameias imaginárias e coloca-nos em perigo...
O 3º Mundo é mais longe do que o 4º...
Continuo a agradecer os vossos textos.

José Manuel Vilhena disse...

Sinceramente nunca me coloquei esta questão desta forma....mas continuo a pensar que talvez haja uma terrível habituação estética ao próprio sofrimento...existem rostos, tons de pele que nos habituamos a associar à dor...por repetição noticiosa,entre outras coisas...
é sempre estimulante passar por cá!
um abraço

addiragram disse...

Como se pode mostrar bem uma das raízes da indiferença e tb da intolerância! O diferente transforma-se em estranho e,mais tarde, em inimigo...
São importantes estes textos e os debates que les mesmos suscitam.

helena disse...

Uma constatação que me entristece...