28 junho, 2010

O AVIADOR IRLANDÊS

An Irish airman foresees his death

I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan’s poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public man, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.

W.B YEATS

Quando comecei a ler a Ilíada, pensava que iria assistir a um confronto entre os bons e os maus. Os bons, claro, seriam os gregos. Os troianos, ou seja, os “outros”, seriam os maus.
É normal, somos mesmo assim. Gostamos de pensar através de dicotomias pois facilita bastante a nossa compreensão das coisas. É bem mais fácil pensar nos bons de um lado e nos maus do outro, os alemães de um lado e os aliados do outro, índios vs. cowboys, povo vs. burguesia.
Só que começamos a ler a Ilíada e ficamos logo baralhados. Aquiles é um grande herói grego. No entanto, Agamémnom, sendo também grego, é um patife da pior espécie.
Por sua vez, vamos encontrar troianos que são um verdadeiro modelo de virtude. Heitor, sendo um dos “outros”, é claramente um dos “nossos”. E Príamo é aquele velho que gostaríamos de ter como avô.
É mesmo para se ficar baralhado: combate-se ao lado de homens que não prestam, que gostaríamos de ver do lado de lá para morrerem na vez de outros que, apesar de estarem desse lado, são homens bons e honrados.
E depois há as mulheres troianas que bem gostaríamos de ver protegidas e salvas: Briseida, Criseida, Hécuba, Cassandra, Andrómaca, cujas vidas estão em perigo por causa de uma grega ambiciosa e traidora, Helena.
Aliás, o que eu estou para aqui a dizer, é o próprio Aquiles quem o diz: “Eu não vim para aqui lutar por causa dos lanceiros troianos/visto que eles em nada me ofenderam.
Ora, o que diz Aquiles é o que diz o aviador irlandês do poema de Yeats. Ambos combatem e, ao combaterem, estão a matar pessoas que nunca lhes fizeram qualquer mal, que não odeiam, que nem sequer conhecem pessoalmente. Do mesmo modo que, acabam por defender pessoas que não prestam e são uns pulhas da pior espécie mas que se encontram do seu lado da barricada.
O grande inimigo de Aquiles não é Heitor, um grande homem, um bom pai e bom filho e que tem uma morte horrível nas mãos do primeiro. O grande inimigo de Aquiles é Agamemnon, que está do seu lado da barricada.
E quantos alemães bons terão morrido durante as duas grandes guerras? Bons pais, bons filhos, boas pessoas? E quantos patifes não terão combatido do lado dos franceses, ingleses e americanos, ou até militado na gloriosa Resistência?
É por isso que eu fico sempre de pé atrás quando me vêm falar de orgulho em ser português e parvoíces desse género. Mas orgulho porquê? Que raio de coisa é isso de sentir orgulho por se ser português, espanhol, uruguaio ou tailandês? Eu faço parte de um povo que tem gente boa, gente má e até gente miserável. De um povo que fez, ao longo da História, coisas boas e coisas vergonhosas.
Mas qual é o povo que não é assim? Que qualidade têm os portugueses que outro povo não tenha? Que defeitos têm os outros dos quais os portugueses estejam imunes?
Incomoda-me pensar que, se Portugal estivesse em guerra, e eu estivesse a combater, estaria, tal como Aquiles ou o aviador irlandês, a defender gente insuportável e mesquinha, do mesmo modo que iria contibuir para aumentar o número de órfãos, jovens viúvas, mães sem filhos, homens que estariam ali a morrer apenas porque foram obrigados.
Irrita-me mesmo pensar que iria defender portugueses que, para além do seu mau aspecto e duvidosa idoneidade moral, usam a língua de Camões e Pessoa como se estivessem a cuspir para o chão e que usam as cordas vocais para ensurdecer a inteligência dos outros.
Vistas lá do céu, por onde anda o aviador irlandês, as pessoas cá em baixo podem parecer todas iguais. Vistas cá em baixo, porém, há nódoas que dificilmente se conseguem disfarçar.

5 comentários:

helena disse...

Os homens querem combater e depois culpam uma mulher, Helena : ))

Margarida disse...

Mas isso sempre foi assim, desde sempre e com todos, de A.C. até hoje, dos Bosquímanes aos Esquimós, passando, é claro, pelos 'tugas'.
E os clássicos são (como toda a literatura) um espelho da humanidade.
Porquê este súbito azedume, professor?
:)
Podemos ter ainda algum orgulho em ser humanos? Essa é que é a grande questão, no desmesurado universo onde vogamos (e não falo apenas no espaço sideral)...

José Ricardo Costa disse...

Ó Margarida, não é azedume nenhum. Acontece apenas que o patriotismo, sempre que vai para lá da sensatez e das sãs emoções, me deixa algo apreensivo e desconfortável.

JR

Margarida disse...

Somos apenas humanos, professor...; há que relevar e sorrir mais.
(olha quem fala, ai...)
:)

José Cipriano Catarino disse...

A Ilíada, que só conheço graças à tradução de Frederico Lourenço, é o melhor livro que já li. Dá raiva ver como há uns 2600 anos um homem genial como Homero o conseguiu escrever. Quanto à participação em conflitos, raramente se pode escolher por quem lutar. Eu, por exemplo, no 25 de Novembro, vi-me envolvido sem saber de que lado estava.