22 junho, 2010

MANUAL DE FRASES PRONTAS

Hoje estive a reflectir sobre a importância de ser, ou não, uma pessoa de resposta rápida.
Vejamos. Imagine uma daquelas ruas do oeste americano, rua deserta por onde o vento empurra rolos de vegetação seca. As portas do saloon fecharam, alguns homens espreitam por uma janela ocasional. Lá ao fundo, está o vilão, de mão na arma. Mal ele esboça a primeira sílaba, o leitor, que é o bom, saca de uma resposta rápida e o outro cai morto na poeira da sua imaginação. Quem diz oeste americano, diz qualquer sala de reuniões. Toda a gente sabe que é a mesma coisa.

Pois é, mas vamos imaginar que o leitor amigo não tem essa facilidade de resposta. É daquelas pessoas que só passado algum tempo pensam: “Ah! Eu devia ter respondido isto.” Ou só, já passada a oportunidade e a ocasião, a frase exacta, perfeita, se lhe desenha letra a letra no pensamento. Demasiado tarde: da frase só fica um esplendor inútil, perdido nos seus pensamentos.
Se o leitor pertence ao grupo dos mais lentos pode, obviamente, treinar a sua pontaria. Mas pode, de igual modo, ter uma reserva de frases feitas.
Lembrei-me disto a propósito de uma canção de Charles Aznavour cujo título é, acho eu, Tu te laisses aller.

Retomemos a questão: o leitor está, só para dar um exemplo, a meio de uma muito forte discussão conjugal. As mulheres são insuportáveis, não são? Então o amigo respira fundo e, friamente, pausadamente atira-lhe com um verso dessa canção: “Tu ressembles de plus en plus à ta mère, qui n’a rien pour inspirer l’amour.” Enfatize o rien e será demolidor. A frase é devastadora. A vilã jaz por terra.

Meu caro, há aqui um pormenorzito e eu não ficaria descansada se o não advertisse. Já vimos o bom e o vilão. Falta-nos o mau. Neste caso a má. Se, por acaso, tiver mulher que lhe responda rapidamente ou, sobretudo, responda com frase original ao que acabou de lhe dizer, olhe que ela vale a pena. Não a deixe ir embora. Mulheres assim são raras. São difíceis, acredito que devam ser, mas, a longo prazo, compensam.
Claro, isto sou eu a falar e o que eu digo não se escreve. Eu não sei nada da vida. Li muitos livros e vi muitos filmes. Na vida, há-de ser tudo diferente, presumo.

6 comentários:

José Cipriano Catarino disse...

Sempre sibilina... E eu, que não sou de resposta rápida, nem de raciocínio vivo, esforço-me em vão para alcançar o significado destes posts.

jrd disse...

Excelente texto.
Merece ser lido tendo em fundo a banda sonora do Ennio Morricone.

Ivone Costa disse...

Zé, não merece o esforço: isto não tem significado algum, é conversa fiada.

"Nugae", a etiqueta que lá vês, significa "insignificâncias, bagatelas.
Nada que valha a pena.

estela disse...

li um dia algures
que aqueles duelos todos, os do far-west e os mais florestais, mais franceses, não eram tão certeiros assim. muitas vezes ninguém acertava em ninguém, outras era mais ao lado e outras ainda eram só uns arranhões.

a vida não será tão diferente disso, creio. a resposta rápida tem tanto de assassina como de redentora. depois de jazidos por terra, levantemo-nos, sacudamos o pó e tentemos outravez, num outro dia em que o sol esteja alto, lá pelo meio dia.

gosto de a ler :)

Ivone Costa disse...

Estela, obrigada por gostar. Há em mim tão pouca, mas tão pouca coisa para gostar que é sempre agradável ler elogios.

Reinaldo Amarante disse...

Cara Ivone,
Estás a surpreender-me. Não te conhecia essa faceta. Anda para aí algum cansaço de fim de ano?
Eu gosto dessa Ivone de resposta rápida, sibilina (como diz o Zé), contundente, elegantemente bruta (salvo seja!), mas convicta directa e franca. De resto, somos muito mais do que alguns pensam. E quando a onda levantar, será um tsunami imparável. Arrebita!