30 junho, 2010

DESIMPRESSIONAR

Pierre-Auguste Renoir, Le Moulin de la Galette

É muito fácil explicar o impressionismo na pintura. Na música será mais difícil, na literatura talvez ainda mais. Mas veja-se a abertura de Fumo, romance de de Ivan Turgenev:

No dia 10 de Agosto de 1862, às quatro da tarde em frente do conhecido Konversationhaus de Baden-Baden, estava reunido um grande grupo de pessoas. Fazia um tempo magnífico; tudo à volta - as árvores verdes, as casas claras da confortável cidade, as colinas onduladas - tudo se estendia em festiva abundância sob os raios de um sol benévolo; tudo sorria com uma espécie de encantamento cego e confiante, e o mesmo sorriso vago mas bondoso pairava nos rostos humanos, velhos e jovens, feios e belos. Nem as próprias figuras pintadas e maquilhadas das cocottes parisienses perturbavam a impressão geral da clara satisfação e contentamento; e as variegadas fitas, pérolas, ouro e ouropel nos chapéus e véus sugeriam automaticamente à vista o brilho vívido e o leve tremular das flores primaveris e das cores do arco-íris. Só o arranhar seco e gutural das conversas em francês, que se ouviam de todos os lados, não podia transformar-se no gorjear das aves nem comparar-se com ele.

O que nós aqui temos é uma massa compacta onde todos os átomos da realidade se encontram concentrados numa harmonia global. Uma realidade que não tem camadas, estratos, níveis. Há apenas uma luz que uniformiza aquela multiplicidade de seres e objectos que habitualmente nos obriga a usar o olhar através de diferentes camadas. Aqui não. O mesmo olhar abarca tudo, ou, se quiseremos, tudo está feito para ser olhado da mesma maneira. Só mesmo o "arranhar seco e gutural das conversas em francês" destoa de tudo o resto". Mas, logo de seguida, diz o narrador, quebrando o encantamento inicial:

"No entanto, tudo decorria como habitualmente".

E o que será aqui o habitualmente? Vou fazer uma selecção:

a) A orquestra no coreto tocou um pot-pourri da Traviata.

b) Nas salas de jogo, à volta das mesas verdes, juntavam-se todas as figuras conhecidas com a mesma expressão triste e ansiosa, entre espanto e exasperação(...).

c) O mesmo proprietário obeso e bem vestido de Tambóv, com a mesma pressa incompreensível e convulsa, curvado sobre a mesa e não prestando atenção aos sorrisos frios dos croupiers".

d) À volta da árvore russa reuniam-se normalmente os nossos simpáticos compatriotas; vinham altivamente, negligentemente, elegantemente, familiarmente, como compete a seres que se encontram no pináculos da cultura moderna.Mas, depois de encontrarem, já sentados, decididamente não sabiam o que dizer uns aos outros, e caíam na tagarelice triste ou na fala barata, vulgar, e nas anedotas extremamente impudicas de um ex-literato francês, antiquado,, falador e palhaço, com uns miseráveis sapatos judaicos nos pés e uma pequena barba desprezível na face ignóbil. Ele atirava à ces princes russes todos os tipos de futilidades dos velhos almanaques Charivari e Tintamarre, e eles, ces princes russes, desfaziam-se em gratas gargalhadas, como reconhecendo involuntariamente a opressiva superioridade do humor estrangeiro e a sua infinita incapacidade para inventar algo divertido.

e) E ali estava o Conde X, o nosso incomparável diletante, uma natureza profundamente musical, que «dizia» canções tão divinamente, embora não pudesse tocar duas notas correctamente sem primeiro picar o piano ao acaso com o indicador e que cantava como um cigano ordinário ou como um barbeiro parisiense.

f) Ali estava também o nosso encantador Barão Z, esse mestre de todos os ofícios: literato, administrador, orador e batoteiro.

g) Ali estava o Príncipe Y, amigo do da religião e do povo, que nos bons tempos do monopólio oficial fizera uma enorme fortuna vendendo vodka misturada com estupefacientes.

h) Seguindo o exemplo da condessa, a Princesa Babette, a mesma em cujos braços Chopin morreu (calcula-se que haja na Europa quase mil damas em cujos braços Chopin soltou o último suspiro) e a Princesa Annette, que teria tudo na vida se às vezes, subitamente, como o cheiro de couve a vencer o melhor perfume, não surgisse nela a simples lavadeira de aldeia.

Esta evolução da narrativa a abrir o romance é absolutamente sublime. Começa, idilicamente, com uma conjugação sincrética de sensações. Como se o narrador fosse miope e visse apenas uma realidade. Ou como alguém que vê uma floresta das alturas, não podendo ver pormenores mas apenas algumas vagas cores e texturas. Mas, depois, parece que o miope vai ganhando visão ou que se vai perdendo a altura até penetrarmos finalmente no interior da floresta, acabando depois por vermos a realidade com toda a lucidez e apurada percepção.
Turgenev começa por nos pintar ingenuamente uma realidade mas, depois, termina como um sátiro perspicaz que, perante o material humano que tem diante dos seus olhos, só lhe resta mesmo ajudar-nos a tomar consciência da fealdade, da miséria, dos vícios, do risível que podem ser encontrados onde houver seres humanos.

1 comentário:

Margarida disse...

Impressionante...