02 junho, 2010

CULTURA GERAL


"No século XVIII, mais do que um philosophe invocou uma reforma radical da educação no sentido da razão e das Luzes. O estudo de línguas mortas, da história, das disciplinas humanísticas em geral, devia ser rapidamente abandonado e substituído pelo uso dos novos instrumentos da descoberta da verdade - as ciências naturais, incluindo as da sociedade, nas quais se punham grandes esperanças -e pela instituição de princípios cívicos de tipo utilitário". I. Berlin, Cultura Geral*

"Pressuporei, além disso, que os seres humanos têm, geralmente falando, o direito a desenvolver as suas capacidades de pensamento e de sensibilidade, ainda que ao preço de nem sempre se integrar com facilidade nesta ou naquela ordem social centralmente planificada, e por muito prementes que possam ser as exigências tecnológicas das suas sociedades; que as virtudes públicas e a paz social não são necessariamente preferíveis ao espírito crítico, à imaginação livre de entraves e a uma capacidade madura no plano das relações pessoais e da vida privada" I. Berlin, Cultura Geral

Quando andava na faculdade abominava a ideia de "cultura geral". E para defender o meu ponto de vista socorria-me sempre daquele aforismo de Heraclito no qual opunha a vacuidade da polimatia (cultura geral) à procura do logos, da verdade.
A cultura geral era, para mim, cultura de lista telefónica, simples bavardage, exibicionismo burguês, puro entretenimento de quem não queria pensar e reflectir profundamente sobre os mistérios do ser.
Lembrei-me agora disto por ter acabado de ler um texto de Isaiah Berlin, escrito em 1969, precisamente intitulado "Cultura Geral"
Berlin faz a clara apologia da cultura geral. E fá-lo por razões essencialmente sociais e políticas. Um dos seus grandes combates consiste na denúncia dos perigos de uma visão do mundo e da vida unilateramente orientada pela razão e que tem as ciências naturais como modelo. Ora, a cultura geral impede os estudantes de ficarem reduzidos a uma área de especialização, permitindo viverem uma vida intelectual mais livre e aberta. E, também, evitar que os políticos fiquem à mercê das ideias e projectos de especialistas "só com um olho" que acabam por dominar com a sua ideologia tantas vezes travestida de ciência e objectividade racional.
A cultura geral permite entender que existem várias leituras do mundo, vários processos mentais, várias linguagens, várias sensibilidades. A cultura geral, neste sentido, abre horizontes, torna o espírito humano mais elástico e impede uma submissão da diversidade colorida ao cinzentismo perigoso da razão.
Há, hoje, inúmeros campos onde este perigo se faz sentir, onde o excessivo peso de uma mentalidade tecnocrática, racional, científica, planificada, utilitarista, pode deitar a perder séculos e séculos de conquistas civilizacionais. A escola, por exemplo. E é profundamente dramático ter a consciência de que podemos começar a morrer precisamente no lugar onde começámos a crescer.

*Isaiah Berlin, O Poder das Ideias, Relógio de Água

4 comentários:

bons temposhein disse...

A cultura geral permite, por exemplo, escrever um poste como este e, já agora, lê-lo e compreendê-lo.
bfs

marteodora disse...

Concordo inteiramente com o Berlin e, já agora, com o autor do comentário anterior.
Infelizmente, há por aí tanta cultura inculta que se considera tão sapiente que nem da sua ignorância tem consciência.
A visão do "mundo" tem de ser global para ser entendida com a relatividade que ém inerente aos processos, às conjunturas, aos acontecimentos. Só dessa forma se poderá olhar e analisar de forma critica; ao invés de tomar tudo o que nos é dado a saber como absolutamente verdadeiro.

Ana Paula Sena disse...

Também eu detestei durante muito tempo a expressão "cultura geral". Interpretava-a como superficialidade. Mas depende de como entendermos em que consiste. No sentido de I. Berlin, penso que é fundamental. Um pensamento enviesado conduz sempre a um atrofiar da massa crítica, assim como ao apagamento da criatividade e da imaginação. Também pode conduzir ao totalitarismo, em última instância.

Por outro lado, se entendermos "cultura geral" como um saber do tipo enciclopédico, bom... a muita gente faria falta um pouco mais disso mesmo, ainda que se trate de um plano apenas inicial em direcção a uma abordagem mais crítica e enriquecedora.

Obrigada :)

pmramires disse...

Li há dois meses esse ensaio e há dois meses que ando a reflectir sobre ele. Mas por outras razões. Porque o cineclube de economia foi um falhanço popular mesmo entre aquelas pessoas que se esforçaram por perceber a linguagem do cinema. Por ter caído no erro de pensar que bastava pôr uma obra-prima à frente de um conjunto de pessoas predispostas a entendê-la para isso "funcionar". Não funcionou. Berlin, nesse ensaio, também alerta para esse erro. Acho que devíamos ter apresentado os filmes e tentar falar com as pessoas sobre eles. O problema é que elas ainda não os tinham visto. Quando o fizemos, reparamos logo que sem ser para um ou dois, estávamos a falar chinês. Enfim, gosto muito de "O Poder das Ideias" e comprei-o quando o José Ricardo falou dele pela primeira vez. Obrigado.