27 junho, 2010

BATMAN






Num célebre artigo chamado Como é ser um Morcego?, Thomas Nagel coloca a questão de saber se é possível a um ser humano perceber o mundo como um morcego. Não se trata de, cientificamente, conhecendo o sistema nervoso do morcego, explicar o seu funcionamento e a relação do animal com o mundo a partir de um ponto de vista externo, tal como o faz o médico a respeito da dor do doente, explicando-a sem a sentir. Nem de o entender, estabelecendo analogias com o ser humano. A sua tese é a de que embora saibamos como um morcego percepciona o mundo nós não conseguimos percepcioná-lo tal como faz o morcego, ou seja, existe uma barreira intransponível entre nós e o morcego. Pois uma coisa é o conhecimento do cérebro, outra completamente diferente será o conhecimento da mente.

Eu lembrei-me disto a respeito destas fotografias. No fundo, não é preciso entrar numa gruta e pensar em morcegos, para introduzirmos o problema. Basta pensar nestes seres humanos. Será possível a um europeu conseguir entender o mundo como entende cada um destes seres humanos que aqui vemos?

4 comentários:

estela disse...

entendo a pergunta e responderia: "não" sem qualquer hesitação.
mas o mais interessante para mim não é a pergunta "Como é ser um morcego?" no sentido de entender esse dasein. o mais espantoso é não podermos deixar de nos colocar perguntas dessas, não desistirmos de procurar respostas a dúvidas semelhantes, não construirmos quase nada sem partirmos de pressupostos presos a certezas que julgamos ter - todas ligadas a tais questões.
a europa, colocado meio do planisfério como se o mundo fosse assim divide-se entre os que não aceitam a diferença e os que julgam compreendê-la dismistificando. ah, e há os que se estão nas tintas.
e eu: que olho para essas fotografias com espanto. sem fazer perguntas ;)

jrd disse...

Que dizer de um 'europeu' que se faz tatuar do pescoço aos tornozelos?
Eu não o entendo melhor do que aos personagens das fotografias.
Por isso mantenho a 'prudência' da minha ignorância...

José Ricardo Costa disse...

Caro jrd
Um esclarecimento. Não é nada em que eu não tivesse pensado. Porém, acaba sempre por ser diferente. Nós olhamos para esse europeu e continuamos a ver um europeu. Podemos compreender a sua mente através de várias explicações, inclusivamente de natureza psiquiátrica. Mas, apesar de uma possível excentricidade, os seus quadros mentais, a sua língua, as suas referências culturais são as nossas. A MTV que ele vê é a MTV que os outros vêem.
No caso das pessoas que aqui trouxe, os pressupostos são completamente diferentes. Funciona mais claramente a teoria do morcego.
JR

Rita TSBGC disse...

Em 1983 durante a XVII Exposição, vi no Convento da Madredeus um objecto que mudou o meu olhar para sempre. Era uma Virgem Maria esculpida em marfim, os seus olhos eram orientais. Sei que pedi para regressar e que aquele objecto me fez descobrir os olhos dos outros.
Se sei como é ser-se morcego? Claro que não, mas O Outro, o estranho homem que habita numa zona tórrida e que por isso lhe cresceu um pé na cabeça, para o proteger do sol, nunca mais me abandonou, uma das minhas procuras são IMAGO MUNDI, mapas e cartas dos outros, com centros e desertos todos ao contrário dos meus.
Portugal bebeu sal enquanto esperava monstros / outros durante as suas viajens.
AS Mirabillia eram uma fantasia proto-científica que procuravam explicar como seria o outro. O Outro é quase sempre voz passiva nos relatos de guerra e conquista, o nós centra a história e o mundo e por vezes é muito redutor...