05 junho, 2010

AS CARAÍBAS POR BAIXO DO CACÉM



"O que uniu a geração de 60 não foi o interesse de todos, mas as necessidades e direitos de cada um", aponta Judt. Até então, "o centro da gravidade da argumentação política não estava entre a direita e a esquerda, mas na própria esquerda". Excepções, como as de Raymond Aron ou Isaiah Berlin, eram raras. A geração de 60 e a esquerda que a estimulou perderam "todo o sentido da partilha de propostas" e esvaziaram "o consenso implícito das décadas do pós-guerra", abrindo portas à emergência de um novo consenso baseado "na primazia do interesse privado". O "narcisismo dos movimentos estudantis, dos novos ideólogos da esquerda e da cultura popular dos anos 60" mudou tudo, e as suas influências chegam aos dias de hoje: "Os homens e mulheres que dominam a política hoje são inquestionavelmente produtos - ou, no caso de Nicolas Sarkozy, subprodutos - dos anos 60".

Vale a pena ler este artigo sobre o mais recente livro de Tony Judt. Muito interessante a irónica responsabilidade do Maio de 68 no reforço de um modelo capitalista contra o qual os próprios estudantes se revoltaram (embora este excerto remeta mais para a classe política propriamente dita).
O prazer imediato? Desejar o impossível? O culto do eu e dos seus instintos privados? O fim dos sacrifícios, da monotonia tanto burguesa como operária? Viver, viver, viver?
Ok, vinte anos depois temos os yuppies neo-liberais no seu máximo esplendor, os operários e a classe-média enterrados em empréstimos bancários para fazer a viagenzinha às Caraíbas e ter o carrinho que antes só os ricos poderiam ter.
Ser realista é pedir o impossível? Isto é música para os vampiros do grande capital.

2 comentários:

jrd disse...

Muitos dos actuais capatazes dos vampiros do grande capital, andavam a atirar pedradas em Maio 68 e agora estão mais inclinados para Bora Bora.

estela disse...

ser realista é, de facto, pedir o impossível.
e eu acrescento ao che: o pior é que já ninguém se lembra que o impossível não é nada de especial e deveria servir todos.
:P

gostei das linhas sobre os 20 anos depois. bem resumido. mas nada do impossível que um realista deve pedir.