20 junho, 2010

"AQUELES EM QUEM PODER NÃO TEVE A MORTE"

Soube, ontem, que Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República, não estará presente nas exéquias de José Saramago.
Que vergonha, senhor Presidente, que vergonha. Daqui a trezentos anos, nos compêndios de literatura, tenham eles a forma que tiverem, ainda se poderá ler Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (que é o primeiro verso de um soneto de Camões, para o caso de Vossa Excelência andar desmemoriado), como também, nos próximos séculos, gerações hão-de saber que Era uma vez um Rei que fez a promessa de levantar um convento em Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido. Era uma vez.
Nos compêndios de história, em duas linhas se dirá que Vossa Excelência foi um presidente tíbio, com má dicção, que mastigava bolo-rei de boca aberta e não sabia quantos cantos têm Os Lusíadas.
Reveja as imagens da entrega do Nobel a Saramago e aprenda que se pode nascer na Azinhaga e não ter alma de Boliqueime.
Eu apostaria que, ao invés de muitos adolescentes deste país, Vossa Excelência não saberia responder à questão B do Grupo I do recente exame de Português do 12º ano. Mas, neste momento, esqueça essas limitações, deixe-se de atitudes de marquise, vista-se conforme o acto e vá homenager o homem que tinha de sobra o que Vossa Excelência nunca terá : talento e determinação.

10 comentários:

Alice N. disse...

Absolutamente de acordo! Uma verdade nua e crua e muito, muito bem dita! Como eu gostaria que o senhor PR lesse este texto.

Emília Ferreira disse...

Muito bem! Muito bem! Muito bem! A grandeza é coisa que não passa pelo nosso Presidente da República. Para que se veja que a República, apesar de todas as virtudes, pode também cair nas piores armadilhas da monarquia: nem sempre o poder é (herdade ou) ganho pelos melhores! Que pena a grandeza ser tão esquiva a este Presidente! Tinha tido uma grande oportunidade para se limpar da vergonha de que foi cúmplice. E deitou-a borda fora. Muito significativo.

jrd disse...

Excelente! Um libelo demolidor.
Um texto que o Presidente, 'génio da banalidade', não tem dimensão cultural nem educação suficientes para entender.

Anónimo disse...

O sr. Presidente da República continua caído no chão, os tempos mudam e ele continua sem vontade de se levantar! É muito triste.

helena

marteodora disse...

Bem, Ivone, que texto!
Afinal, Saramago não levou as palavras todas.

Reinaldo Amarante disse...

Não sou partidário do PCP, não li todos os livros de Saramago (nem pouco perto), não me revejo em todas as posições que tomou e não estive em Lisboa nas exéquias. Pouco me importa que Presidente não tenha lá estado. Pelo menos a mim não ia representar que não votei nele. Saramago será recordado enquanto existirem livros. Cavaco? Talvez, se alguém ainda tiver (como eu) um auto-colante onde o Pr, então Primeiro-ministro, era apelidado de "Pinóquio".
Bom Dia.

Ana Paula Sena disse...

Muito bem dito!

Margaridaa disse...

Do homem- presidente e do homem-escritor

Penso que a tolerância tem que funcionar em todos os sentidos e não somente em relação ao que se parece.

Esta situação que vejo:

Há o homem-presidente e o homem-escritor. O homem escritor tem como posição de vida dizer abertamente o que pensa, contra ou a favor, do mundo que o rodeia e das pessoas. O homem-presidente tem que cumprir as suas obrigações de presidente, mas não deixa de ser homem, com os seus gostos e as suas posições. Talvez que o homem-presidente nem goste muito do homem-escritor, está no seu direito, mesmo que o homem-escritor seja adorado e elogiado por muitos. Quando o homem-escritor morre, o presidente cumpre as suas obrigações, mas o homem-presidente não mostra ao seu apreço pelo homem-escritor. Parece-me que está no seu direito.

Crispa-me ver a falta de tolerância que anda por aí, falta de abertura para as reacções de cada um, quando essas reacções não se encaixam na reacção geral. Mudaram-se os tempos, mas as pessoas continuam na mesma.

Rui disse...

Quando penso na entidade abstracta "Presidente da República" estou em total consonância com o que a Ivone escreveu.
Mas depois penso em Cavaco e reconheço que este é bem o PR que Portugal escolheu, um indivíduo cinzento e sem grandeza nenhuma.
E, por uma vez, acho que ele tomou a decisão certa: Saramago, penso não me enganar, sempre o desprezou. A sua presença seria, assim, uma ofensa à memória do Homem-Escritor e ela só contribuiria, por isso, para diminuir a cerimónia.
Fez muito bem o PR-Cavaco em não ter aparecido.

Ivone Costa disse...

Rui

Era na entidade abstracta que eu estava a pensar quando escrevi.
Para mal de todos nós, a entidade abstracta e Aníbal Cavaco Silva coincidem na mesma pessoa. Infelizmente.

Ivone Costa