17 junho, 2010

A ANGÚSTIA DA MALHA NA MEIA

Hoje, lembrei-me do José Castela. Foi meu colega lá na escola vai para uns 20 anos. Era professor de Filosofia e vinha, se me não falha a memória, de Coimbra. Como tenho a vaga ideia de que ele seria mais velho do que eu, espero que a reforma já lhe tenha aberto o regaço prazenteiro.
Disse ele um dia: " Eu nunca hei-de entender a angústia da malha na meia! Vocês ficam num desatino que não há quem perceba." E contava que a mulher, as colegas, as amigas, assim que tinham a percepção de ter uma malha na meia, ficavam num desespero que metia dó. E não percebia, não conseguia perceber. Lá tentei explicar-lhe: eu, de malha na meia, entrava em semelhante desvario. Aliás, tinha sempre, no porta-luvas do carro, outras meias como jogador em banco de suplentes. E, caso as não tivesse, antes preferia expor as pernas aos oito graus de um Janeiro a sério, de que fazer figuras de malha na meia. E tentei: para já, havia a questão prática: as meias, sobretudo as que eram bonitas, eram caras. Meia com malha é meia estragada e isso já era motivo de sobra para uma irritação. Depois vinha, a meu ver, a questão essencial: a questão do irremediável: batôn esborratado resolvia-se com um retoque discreto, rimmel derretido também se arranjava, lascava-se o verniz da unha e escondia-se a mão no bolso, cabelo despenteado foi o vento que lhe deu, até podia ser muito engraçado. Mas a malha na meia era insolúvel: estava ali uma pessoa, alinhadinha dos pés à cabeça, irrepreensível até onde tinha conseguido sê-lo, ou até onde a natureza lhe tinha permitido, e zás! lá vinha aquele desaire estragar tudo. E continuei: malha na meia dava um ar desleixado, desalinhado, dava um arzinho de trottoir.
Ele encolheu os ombros, continuando sem compreender a razão de tanta angústia, por mais compreensíveis que fossem as razões que eu aduzia.
Hoje, passados estes séculos todos, eu teria mais para dizer porque o tempo, que muito leva, também muito traz: a angústia da malha na meia é uma reacção exagerada perante a impossibilidade de atingir a coisa mais inútil que se pode querer alcançar: a perfeição.

4 comentários:

C.M. disse...

Mas por vezes sabe bem rasgar um belo par de meias... calçadas!

jrd disse...

Curioso. De repente lembrei-me da nódoa na gravata. Absolutamente desesperante.

joao alfaro disse...

O mais belo texto feminino que li, nos últimos tempos

Reinaldo Amarante disse...

Eu fui educado à moda antiga, quando as malhas caídas podiam ser recuperadas nas "apanhadeiras" e as meias tinham uma costura atrás. Tão horrível como uma malha caída era ter a costura torta.
Mas pouca coisa se compara ao prazer de retirar um par de meias (ou collants). Só o que vem a seguir.