28 maio, 2010

STAT PRISTINA ROSA NOMINE, NUDA NOMINA TENEMUS

Hoje, relampejei em raios e trovões que nem Zeus Olímpico nos seus dias de fúria. Estando eu no horário que a escola me atribuiu para substituir os professores em falta (actividade que desempenho sem alarido quando sei tratar-se de caso de doença do próprio, de familiar ou de outra ponderosa razão), veio a funcionária informar-me que teria de ir substituir uma professora de Espanhol que se encontrava a exercer a nobre actividade de acompanhar alunos em visita de estudo. A lei obriga a um rácio de um professor por cada quinze alunos. A visita de estudo integrava-se no plano de actividades da disciplina de Religião e Moral. Só há uma professora de Religião e Moral, logo vários professores, não sei quantos, integravam, por força do normativo, o grupo dos ausentes.

O plano de aula que foi me distribuído indicava como conteúdo a leccionar el modo imperativo. Pensei que, com uma turma de 8º ano, eu lá resolveria el modo imperativo, embora tenha barafustado alto e bom som contra a prática de, estando uns professores de passeata com os alunos, outros tenham de ir fazer de ama-seca, ou como disse uma vez a Execrável, “desempenhar o dever de custódia”, coisa que jamais me passou pela cabeça que teria um dia de fazer, quando andei a traduzir Píndaro e a estudar Teoria da Literatura. Uma simpática colega de Espanhol prontificou-se logo a ir ela fazer a substituição, enquanto eu fui substituir a professora de História, cujos abandonados alunos estavam a ver o filme “Hotel Ruanda”, no âmbito dos conteúdos que estão a apreender de momento: mutações políticas mundiais pós - 2ª Guerra, descolonizações e o papel da ONU e das organizações não governamentais. Não sei, nem quero saber, quantos professores estava ausentes por via da dita visita de estudo.

Ora bem, eu percebo que um professor de Biologia necessite de se deslocar com os alunos para fora da sala de aula para lhes mostrar aquilo que, dentro dela, não poderiam ver. Percebo perfeitamente que uma coisa é o professor de História dissertar sobre o gótico flamejante, outra coisa é pôr-lhes o Mosteiro da Batalha na frente do nariz.
Mas visita de estudo de Religião e Moral? Para quê? Estão os alunos da minha escola dois ou três dias, em Seia, a meditar no mistério da Santíssima Trindade? A dedicar-se, com uma acutilância mística, a uma exegese bíblica? A dissertar sobre o Cisma do Ocidente? A debater as razões que levaram Celestino V a ser o único Papa da história da Igreja a abdicar?
Não, não estarão, aposto. Não aposto muito porque o Inefável já me vai roubar 1,5% do vencimento e a vida não vai para grandes apostas.

Caro leitor, os alunos estão a brincar, a disparatar, a gritar, a mandar sms’s e partamos do princípio que só isso. A professora de Religião e Moral estará a fazer o mesmo que faz na escola. A professora de Espanhol, que deveria estar na escola a ensinar espanhol, el modo imperativo, por exemplo, e a professora de História que, pelos vistos, também tem ainda conteúdos para leccionar, estão a acompanhar a professora de Religião e Moral a fazer o mesmo que ela faz na escola.
Desejo-lhes um feliz regresso com muitas epifanias e sem nenhuma cabeça partida.

Por que razão estão as coisas neste estado? Não sei, leitor. Se eu soubesse tudo, como diria Guilherme de Baskerville a Adso de Melk, estaria a ensinar Teologia em Paris.

21 comentários:

Reinaldo Amarante disse...

Atão Comadre, e a Avaliação? Como quer ter Muito Bom e Excelente, se não leva a canalha a passear. "Nã" está a ver a coisa como deve ser. Ao fazer uma escalada a pessoa está a subir, a aproximar-se mais do céu e do Criador; quando vem no slide, medita como a vida é efémera; se der uma queda no rapel aprende que quanto mais alto sobe, maior é o trambolhão e não vale a pena ter peneiras que tudo quanto sobe acaba por descer. Já não falo nas trocas de quarto e outras coisas que tais, que a Primavera já vai avançada... Diga lá sinceramente onde há disso na sala de aulas? Já agora, tenha pena dos pobres de espírito e traduza o "títalo" do post.

joao alfaro disse...

nuncaÉ a "nova" escola, cara Ivone, tão apregoada por "entendidos" mandantes.

manufactura disse...

...isto faz parte da estratégia de recrutamento e marketing da disciplina:) e é assumido por muitos dos colegas da dita, fazem visitas de estudo como prémio para os alunos se matricularem na catequese travestida em disciplina, eu vou mais longe, não sei porque raio continua a haver religião e moral, agora emrc,na escola pública... aqui sim se justificava um corte na despesa por parte do estado...

Anónimo disse...

Cara Colega,
Só gostaria de referir que a professora de História em questão foi à visita de estudo e já cumpriu o programa de nono ano.

Gostaria de refeir também que não estava a trabalhar para o muito bom, nem para o execelente, até porque não solicitei aulas assistidas.

Cumprimentos
Sandra Tomás

Ivone Costa disse...

Cara colega

Como presumo que a senhora não fale latim, não lhe posso dar a resposta que aqui caía na perfeição.

Não é a mim que lhe cabe dar satisfação sobre ter ou não cumprido o programa.

Não posso é deixar de calar a humilhação que é ter de ir substituir uma colega em passeio, não retiro uma sílaba, em passeio, quando se passa um ano inteiro, ignorando a saúde e os conselhos dos médicos, a dar aulas e sem ter faltado uma única vez.

Um dia, quando a senhora chegar à idade da sensatez, talvez compreenda o que lhe estou a dizer. Agora ainda me parece cedo para isso.

Ivone Costa

Anónimo disse...

Realmente é notório que para alguns notáveis os ponteiros pararam no século passado.

Pena que estes notáveis não integrem visitas de estudo que privilegiam o contacto com a natureza humana y com meio ambiente. Talvez porque pararam no tempo os seus corpos também sedimentaram e a sua magistralidade somente sobressai na escolinha para a qual foram talhados a fim de dizerem mal de tudo e de todos, é a única maneira de se fazerem notar, os notáveis.

Esperemos que a eloquência continue nos ponteiros parados para que tenhamos algo para nos rir. Viva o bom humor e o por amor de Deus.
Viva o D.Sebastião e o velho do restelo que ambos devem estar a usufruir do colinho do SENHOR.

Ivone Costa disse...

Caro anónimo

Não há muito o hábito, neste blogue,de responder a quem comenta sem ter a frontalidade de dar a cara e assinar por baixo, conquanto aquele "y" deixado escapar na quinta linha possa levantar, quem sabe, o véu da cobardia.
Lamentável é também que se considere a eloquência motivo de riso. Muito eloquente não há dúvida.

Ivone Costa

Anónimo disse...

O latim é língua, para alguns, "morta". Contudo não carece de "assassinato" por incorrecta "transcrição" da expressão que bem titula o texto!
Como pai de aluno viajante e profundo amante da obra (incorrectamente) citada, direi que a amargura verbalizada pela autora do sobredito - texto, naturalmente! - me trás à memória outros personagens que não Guilherme de Baskerville! Vejo mais nele alguma da argumentação teológica de Ubertino di Casale...Mas isto é só a mnha visão do romance! Devo aliás confessar que, ao ler o texto, fiquei de respiração sustida, pois imaginei que terminasse com o "lema" dolcenita "Penitenziagite"! Uff! Graças a Deus que não! Afinal o Mundo ainda não vai acabar por causa do passeio dos miudos!
Ass.: M. Rosa ("stat rosa pristina nomine, nuda nomins tenemus") - um pai de "passeante"

Ivone Costa disse...

Caríssimo M. Rosa

Em primeiro lugar, penso que quando diz "trás à memória", quererá dizer "traz à memória", não é?

Em segundo lugar, cito, no título do post, a última frase do livro, um verso de Bernardo Morliacense, do seu poema De Contemptu Mundi, e está correctíssima, porquanto "nuda nomina" é complemento directo de "tenemus". Ora bem, a palavra "nomem, nominis" um neutro da terceira declinação, faz o acusativo "nomina".
Sugiro que volte a consultar a sua obra,ou o original de Umberto Eco, ou o opúsculo que aquele escreveu sobre a obra em causa, denominado "Porquê o Nome da Rosa?"

Cumprimentos

Maria Ivone Mendes da Silva de Correia Costa
BI 5382752

Anónimo disse...

Não há dúvida que novos hábitos abrem novos caminhos que requerem subtilezas e frontalidades de quintas linhas entendidas como cobardias e deslizes. A minha cobardia não tem véu, nem é como o rei que vai nu.

http://www.youtube.com/watch?v=fSyg_dETC-Q

Anónimo disse...

Tem todo o direito e legitimidade a insurgir-se... mas não contra as pessoas. Inevitavelmente a eloquência passa a ser motivo de risota geral...

"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta". Albert Einstein. Já agora, partilhe esta sábia frase com o seu compadre Reinaldo Amarante.

Ass: João Ferreira Matos
CC 04521224 4 ZZ7

Ivone Costa disse...

Ai, quanta desilusão me dá esta vida. Vou eu ver o YouTube à espera de imagens do festival de Woodstock, com sandálias rasas, cabelos entrançados e roupas destruturadas, assim uma espécie de trash-chic avant la lettre e sai-me o Zeca Afonso de quem esta velha professsora reaccionária, retrógrada, monárquica, de péssimo feito, convencida de que uma aula é uma aula e o resto é paisagem, até gosta e muito.

Curioso, ele há coincidências terríveis:estava eu há pouco a citar o meu Shakespeare: "There are more things in heaven and earth than are dreamt of in your philosophy, Horatio." e surge-me este comentário.
Pois sim, pelos vistos sim, que as há, há e vindas não se sabe de onde.

Mas não se amofine,minha cara senhora, mantenha o véu se lhe apraz. Até conseguirá, quem sabe um acrescento de encanto: lembre-se da primeira vez que Carlos da Maia vê Maria Eduarda sob o peristilo do Hotel Central com "um meio véu muito apertado e muito escuro que lhe realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea."
Como carnação ebúrnea é coisa que vai escasseando em sala de professores, que se vele quem assim o quiser. Eu, apesar de a minha carnação não possuir esplendor algum, sempre me desvelei em variados desvelos.
O que me vai faltando é a paciência.

Ivone Costa

Ivone Costa disse...

Caro João Ferreira Matos (desculpar-me-á a informalidade do trato, mas não tenho a subida honra de o conhecer)

Obrigada pelo seu comentário. Finalmente um insulto de cara destapada.
Estava a ver que não o conseguia.

Ivone Costa

Anónimo disse...

A imaginação é mais importante que o conhecimento. Entristece e ofende me a sua inteligência...

Ass: João Ferreira Matos
CC 04521224 4 ZZ7

Ivone Costa disse...

Não quis de modo algum ofendê-lo. Se o fiz, lamento-o profundamente. Se quiser um pedido de desculpas mais formal, tenha a fineza de me fazer chegar essa intenção.

Quanto ao seu comentário, não pensa assim Kant, na Crítica da razão Pura, onde considera que a imaginação é parte integrante do processo do conhecimento.
Mas tem do seu lado Espinosa e Descartes. São companhias tão respeitáveis quanto o primeiro.

Ivone Costa

Anónimo disse...

Mas o Kant é Kant, e eu sou eu. Não tenho dúvidas que a imaginação é mais importante que o conhecimento, porque o conhecimento é limitado, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro.

Ass: João Ferreira Matos
CC 04521224 4 ZZ7

Ivone Costa disse...

Caro senhor

Abstenho-me de pronúncia quanto ao mérito deste comentário.

Ivone Costa

Ricardo Riobom disse...

Isto é claramente um dilema de perspectiva e percepção no qual eu me digno participar apenas para exercer o meu direito.

Independentemente de quem tem ou não razão devo salientar apenas que toda esta tertúlia é apenas mais um dos sinais da podridão dos corpos docentes que infectam o nosso sistema de ensino.

E enquanto uns citam autores clássicos, obscuros, abstractos e mais ou menos (des)conhecidos enquanto outros se divertem a dissecar o Latim, fica apenas a descoberto a futilidade e mesquinhez de toda a discussão.

Está mesmo na hora de acabar com a velha guarda dos professores.

Até os miúdos que resolvem os diferendos à pancada demonstram mais idoneidade que suas excelências.

Deixai o caminho livre para quem gosta e sabe ensinar, aproveitem a reforma antecipada e acabem com essa frustração de quem mais nada conseguiu fazer com a Licenciatura e cedam aos vocacionados.

Assinado,
Um estudante.

Ivone Costa disse...

Nem mais, Ricardo Riobom!

Por mim, cedo já o lugar a qualquer vocacionado que tenha aprendido que Umberto Eco, Shakespeare, Eça de Queirós, Kant, Descartes e Espinosa não são obscuros nem desconhecidos. Bem, confesso que Bernardo Morliacense já é para os muito vocacionados.

Está cheio de razão, pois está: é acabar com a velha guarda, acabar com todos!

Gostei muito de o ver por cá. Há que tempos não tinha esse prazer.

Ivone Costa

Anónimo disse...

Realmente, ler este post, dá-me vómitos. Não era suposto os professores estarem unidos nestes tempos de crise educacional? Não era suposto os professores darem o exemplo daquilo que é a boa educação, já que lidam com as camadas mais jovens que ainda têm muito a aprender? (Até os adultos, talvez mais estes, sim, pelos vistos) Aquilo que me parece é que existem, assim...como direi... um grupo de "sinhores dótores" que têm o rei na barriga e só olham para o seu umbigo, e se acham de tal forma importantes que, fazer aulas de substituição não é para eles. "Que horror, eu a fazer aulas de substituição, que horror, eu, que sou tão boa!!" Se existem as visitas de estudo é porque estão previstas na lei, e como tal, para se realizarem, as crianças precisam do acompanhamento dos adultos, e se foi realizada é porque foi aprovada, e como tal, faz parte do Plano Anual de Actividades e já se previa que se teria de fazer as ditas substituições. Talvez o que aconteça aqui seja algo de mais profundo, talvez o que aconteça aqui seja uma notória falta de amor por aquilo que se faz e só se pense em pisar os outros, as pessoas quando estão em determinadas posições durante anos e, depois, por alguma razão, "descem" do poleiro, têm muita dificuldade em "sujar" as mãos como todos fazem. Vivam os professores que amam a sua profissão e dão tudo pelos alunos, para que possam crescer como Pessoas. Os que só entram na sala para debitarem matéria, sem sequer se preocuparem com as Pessoas que têm à frente, são umas tristes figuras. Não me parece que um bom ensino se baseie só em estar fechado dentro da sala de aula a "consumir" o que se vai debitando, é mais do que isso, e estes ditos "passeios" também ajudam, e muito, na formação da já referida Pessoa. E assim vai o nosso ensino...

Ivone Costa disse...

Vossa Excelência esqueceu-se de assinar por baixo do que escreveu, coisa que nunca deixei de fazer, fosse qual fosse o poleiro em que estivesse e fossem quais fossem as consequências disso.

Ivone Costa