24 maio, 2010

OBRA ABERTA


Pablo Picasso, A Lagosta e o Gato

Neste artigo, a respeito deste quadro e de outros afins, é dito que na Rússia soviética odiavam a arte de Picasso mas gostavam das suas ideias políticas (Picasso era comunista), enquanto na América era o contrário.
Associar este quadro (1965) à crise dos mísseis cubanos, como pretentem alguns, invocando uns telegramas de Fidel Castro para o pintor? Nada que não possa acontecer. Guernica tem igualmente um referente no espaço e no tempo. Mas reduzir a arte, qualquer arte, a um referente ou, pior, usar o artista como troféu ideológico, será sempre um processo de empobrecimento.
A riqueza de qualquer obra reside na sua abertura a várias interpretações e interpretações de interpretações. A arte deve ser vista como um jogo entre o artista e o espectador, entre quem a cria e quem a recebe. Ler um livro, ouvir uma sinfonia ou ver um quadro será igualmente um acto de criação. Enquanto houver alguém a interpretar, a obra manter-se-á aberta e uma obra aberta será sempre uma obra viva.
O que se passaria, de facto, na cabeça de Picasso, quando compôs esta obra? Não sabemos. Mas será isso, na verdade, assim tão importante?

6 comentários:

Alice N. disse...

Absolutamente de acordo. Uma obra aberta será igualmente uma obra mais rica.

Margarida disse...

Toda a arte é livre.
Se assim não pudesse ser, não era arte.

Rita TSBGC disse...

Obrigado. Obrigo-me agora a rever posições e conceitos.
Confesso que me parece que NADA É LIVRE, nem mesmo aarte, creio até que as épocas opressoras são férteis. São zonas complexas, a mensagem é inerente à criação ou é uma construcção a posteriori produzida por outros que não o fazedor? e quantos momentos e pessoas compõem a obra? Termina na fruição ou existe mesmo sem ela?
Desculpe vir despejar dúvidas...

José Ricardo Costa disse...

Cara Rita, haverá coisa melhor do que despejar dúvidas como exemplo de bom serviço?
Neste caso, são mesmo dúvidas pertinentes. Será que a Ronda da Noite teria o mesmo valor se permanecesse sempre escondida (ainda hoje) numa cave de Amsterdão? Naturalmente que o quadro tem um valor objectivo que é irredutível à sua recepção pelo espectador. Mas seria certamente um quadro mais pobre por lhe faltar precisamente não apenas a interpretação do espectador mas o prazer do espectador.
Também saber que é o verdadeiro criador da obra é uma questão interessante. Como pintaria Rafael se fosse hoje um estudante de Belas-Artes em Roma e como pintaria Monet se tivesse vivido no Renascimento? Como pintaria Pollock se tivesse trabalhado na oficina de Caravaggio? Quem, afinal, pinta o quadro? Claro que o pintor é livre de pintar o que quiser. Sim, eu também sou livre de me exprimir em qualquer língua. Então, porque me exprimo em português e não noutra língua quaquer? Porque é essa que eu sei falar, é essa que me foi dada para eu falar. E mesmo que um pintor entre em ruptura com o seu tempo, tal ruptura será sempre a possível em função de certos condicionalismos. Os impressionistas escandalizaram, é certo. Mas teriam podido escandalizar 200 anos antes? Monet poderia ter pintado o pôr do sol no atelier de Rubens?
E tem razão noutra coisa. A opressão não é necessariamente inimiga da criatividade artística. Grandes livros, obras musicais e grande pintura foram produzidos em épocas de absolutismo e de forte controlo social. E até pode ser mesmo obra engagé. A Rita conhece a 7ª do Shostakovich, a Leninegrado? Conhece o 1ºandamento? Um coisa do outro mundo. E não é pelo facto de o Estaline ter apreciado e ver nela a linguagem musical de que precisava que vai perder o seu valor.
JR

Rita TSBGC disse...

Enquanto li o 1º texto lembrei-me de Brecht e de Céline.
Shostakovitch foi repetidas vezes banido e censurado, revelando que quem se quer apropriar da arte acaba sempre com medo dos sentidos imprevisíveis.
Obrigado pela paciência.
A arte, do meu ponto de vista, é movimento perpétuo, numa relação intemporal entre criador e fruidor, a escavação surge num outro registo, o da inquetação estética que não tem que ser coincidente com a fruição.

jose labergaria disse...

Há muitas histórias à volta das relações de Picasso com os comunistas.
Espanhol, poucas ligações teve com os seus compatriotas.
Creio que foi militante do Partido francês (a norma da Internacional comunista obrigava a "militar" no Partido do país onde se vivia). Tinha uma relação muito próxima do poeta Aragon.
Foi este que lhe encomendou o célebre retrato (desenho, caricatura...) de Estaline para o obituário deste que saiu no l'Humanité e que provocou uma polémica dos diabos, mas que o "tempo" lavou.
Foi também Aragon que lhe pediu o logotipo para a Conferência da Paz ( a célebre "pomba", que parece que o pintor não quiz que fosse...uma pomba).
Os comunistas, de entre a revolução de Outubro de 1917 e o final da 2.ª Guerra Mundial, sobretudo até à morte de Estaline, sempre tiveram uma relação muito tensa com os seus artistas e, estes, com o mundo.
Os que tinham, de facto, muito qualidade, ou afastaram-se ou as suas obras sobreviveram: Picasso, Rivera, Orosco, Siqueros, Rogério Ribeiro, Pomar, Manuel de Pavia, Siza Vieira, etc só para citar estes e só nestas disciplinas artisticas.
Picasso NUNCA passou muito cavaco (salvo seja...) aos dirigentes dos comunistas franceses. A sua obra aí está para o demonstrar.
Entretanto, uma das maiores colecções de Picasso's que conheço encontra-se no Museu Puchkin, em Moscovo.
Abraço,
J. Albergaria