12 maio, 2010

INTRODUÇÃO À METAFÍSICA

Eric Boutilier-Browne

Como os guerreiros cercam a fortaleza, multiplicando estratagemas para que o objecto que durante tanto tempo esteve diante dos seus olhos lhes caia finalmente nas mãos, também o amante ateniense é um guerreiro da palavra, rodeia o amado de discursos que o aprisionam como soldados. E esses discursos não são galanterias grosseiras, mas o início flamejante daquilo que, um dia, utilizando uma palavra grega sem aludir à sua origem, se chamará «metafísica». Os Atenienses ilustres não duvidam que o pensamento é um derivado do diálogo erótico, no seu sentido mais literal. Melhor, a associação entre um corpo a conquistar como uma fortaleza e o voo metafísico é, para Platão, a própria imagem do eros. Quanto ao resto, há apenas bárbaros, que pura e simplesmente não compreendem; ou outros gregos pouco propensos às palavras, e esses sofrem de «indolência de espírito», estando-lhes vedada a guerra mais bela, que é a guerra do amor. Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia

3 comentários:

estela disse...

sublinho, assino por baixo, fotocopio e espalho pelo mundo!

excelente parágrafo!

lira disse...

Certeiro. Não há afrodisíaco maior que o pensamento.

Margarida disse...

Este texto é tão 'miraculoso' que merece ser encaixilhado...
Ou 'tudo-o-que-sentia-sobre-as-palavras-mas-não-sabia-exprimir'.

Grata.