06 abril, 2010

SOBRE SANTA CACILDA, DE ZURBARÁN

Santa Cacilda, Zurbarán - Museu do Prado


Eu nunca tive um espelho.
Via, às vezes, o meu rosto repentino
nos charcos do Inverno.

O pintor trouxe-me aqui
e enrolou no meu corpo
as cores que sempre vi passar ao longe.

Eu não sabia que o veludo se abraçava à curva
de um braço,
eu não sabia que a seda era fria
e amornava
quando o nossa pele se abria sobre ela.

Eu não sabia que os damascos
e os pêssegos maduros
podiam cair do nosso corpo
como caem das árvores.

Eu não sabia que o verde,
o verde do musgo
e o verde do anéis das princesas
se prendiam à nossa cintura
como um desejo sem nome.

Eu agora tenho um espelho.
Mas não me vejo nele.

2 comentários:

marteodora disse...

A sua Santa Cacilda é, para mim, infinitamente mais bela.

Margarida disse...

Ivone, os seus poemas merecem ser jogados do alto dos arranha-céus como confetti, para tornarem abertos e vívidos os sorrisos dos transeuntes da vida.

É sempre muito ... perfeito

o que pinta com palavras torneadas na emoção.