18 abril, 2010

NADA A ACRESCENTAR

Pedro Mexia, conciso e brilhante, como é hábito:

"O meu desentendimento com o mundo é também um desentendimento linguístico. Tenho uma relação obsessiva com as palavras. As palavras não são apenas um «meio de comunicação», não podem ser atiradas e retiradas, não devem ser usadas de modo leviano, não se esfumam depois de serem ditas, não se equivalem umas às outras, têm o seu peso, ficam marcadas como cicatrizes. Deve haver pouca gente com tão fraca memória como eu, mas em contrapartida lembro-me exactamente de todas as palavras importantes que me foram ditas, das pessoas que foram importantes para mim. É possível dizer que no meu cérebro cada pessoa existe ligada a determinadas palavras, palavras quem me escreveu ou disse, e já percebi que o tempo não altera isso. Não aceito certas palavras, o uso irresponsável de certas palavras, boas ou más, nem esqueço quem o disse, e quando e porquê. Afasto-me das pessoas por causa das palavras, as palavras tornam-se um meio de «incomunicação», mas disso não me arrependo. Não me arrependo daquilo em que acredito."

1 comentário:

Margarida disse...

Ah..., o Pedro e a sua lucidez...
Gosto de quem gosta de palavras. Apaixono-me irremediavelmente por essa perfeição que é construir com sílabas (e outros legos)o fluir das sensações. As audácias, os medos, as fúrias, as paixões.
Um dia notei que ele é o autor de quem tenho mais livros (depois, o Pedro Paixão). Não sei o que é que isso quer dizer, mas alguma coisa há-de ser...