15 abril, 2010

MORRER NA PRIMAVERA VS MORRER DE VELHICE

Noronha da Costa
Andava a ver papéis antigos e fui dar com uma folha amarelecida e amarrotada com dez poemas escritos à mão que uma amiga me dedicou quando andávamos na faculdade. Foi há 25 ou 26 anos. Nunca mais soube nada dela.

I
Desenhar em ti o mar.
Depois, povoar-te de gaivotas

II
Construí em ti o meu espaço
o meu mar.
O meu barco de velas longas
e brancas

III
No silêncio dos teus olhos
Iniciei o meu suicídio.

IV
Flores ocultas nascem no meu jardim
Sempre à espera de ti.

V
Às vezes tenho vontade de rir loucamente
Não é por nada,
Apenas não tenho princípios nem fins.

VI
Sou gaivota prisioneira dos teus olhos
Sou saudade louca da tua boca
Caminhos mil do teu corpo à vela.

VII
Não sei o que se passa comigo
Mas sinto que vou morrer na Primavera.

VIII
Em cada flor que eu pinto,
vejo ou descubro
Procuro o teu rosto.

IX
As árvores, os rios
E todos os mares da terra
conversaram longamente sobre ti.

X
As rosas morrem ao entardecer.

Ter-se-á, entretanto, suicidado nos olhos de alguém? Ou terá mesmo morrido numa qualquer Primavera?
Ou estará, como espero e desejo, apenas sentada no sofá da sala a ver a SIC-Notícias depois de ter arrumado a cozinha e ganhando energia para mais um dia de trabalho?

6 comentários:

helena disse...

lindo!

jrd disse...

Essa da sic-notícias dar energia é pouco poética... ;)

Fred disse...

Eu cá acho isso mas é uma declaração de amor...lol

Um abraço!

Anónimo disse...

Morrer na Primavera é poder chegar à velhice ao som da sic-notícias !!!

addiragram disse...

A sua pública acção confirma a vida do que permanece.

C.M. disse...

Lindíssimo, mas inquietante.