08 abril, 2010

INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO DE DAVID HUME



Na primeira mão, o Bayern de Munique tinha ganho 2-1 ao Manchester United. No jogo de ontem, quase de uma rajada, o Manchester chega ao 3-0. Parecia estar tudo perdido para os alemães. Entretanto, já quase em cima do intervalo, Olic, em jogada de contra ataque, reduz para 3-1, ficando então a sua equipa apenas a um golo de poder passar a eliminatória, o que veio, aliás, a acontecer.
O que me traz aqui agora não é o jogo em si mesmo mas a reacção do comentador da RTP após o golo de Olic. Disse ele, com uma mistura de emoção e objectividade científica, que só mesmo uma equipa alemã conseguiria, depois de estar a perder por 3-o, regressar de novo ao jogo.
Vamos lá analisar a frase do comentador. O golo que Olic marcou aos 43 minutos em jogada de contra ataque não é um golo que tivesse representado o que quer que fosse. Ele marcou aquele golo quando a sua equipa estava a perder 3-0. Mas ele poderia ter marcado aquele mesmíssimo golo, da mesmíssima maneira, estando a sua equipa a ganhar 1-o, a perder 1-o, empatada 2-2, ou a ganhar 4-0. Um golo é um golo, uma jogada é uma jogada. Um simples facto atómico e ontologicamente inconsistente. O facto de um golo, aquele golo, permitir reentrar no jogo ou até fazer ganhar um jogo, já terá a ver com outra ordem de realidade. Se aquele mesmo golo tivesse sido marcado, estando o Bayern a perder 4-0 e o resultado tivesse ficado 4-1 para o Manchester, aquele golo não teria qualquer valor. Ou suponhamos que não se tratava de uma eliminatória mas sim de uma final ou de um jogo de campeonato e a derrota do Bayern por 3-2 teria sido apenas uma derrota do Bayern por 3-2.
Eis porque é um absurdo considerar que só uma equipa alemã poderia regressar ao jogo depois de estar a perder 3-0. Até porque em todos os campeonatos de todo o mundo, desde as primeiras ligas aos distritais, existem jogos nos quais equipas que perdem 3-0 fazem 3-1. Seja no campeonato da Macedónia ou no distrital de Bragança, há equipas que, estando a perder 2-0, dão a volta ao resultado. Aliás, ainda ontem o mesmo comentador lembrou a célebre final entre estas mesmas duas equipas na qual, estando o Bayern a ganhar até ao fim do jogo, o Manchester virou espectacularmente o resultado nos descontos.
Ora, o que o comentador da RTP fez, foi proferir uma afirmação que transcende a própria realidade dos factos. Os factos têm um sentido mas ele atribui-lhe um outro que, na verdade, só existe na sua imaginação.
Esta frase do comentador da RTP lembrou-me a crítica de David Hume não só aos juízos de natureza metafísica mas às próprias ideias de universalidade e necessidade dos juízos científicos quando associadas à noção de causalidade.
Vejamos o seguinte juízo: "O leite contribui para o crescimento saudável do ser humano". Nós afirmamos isso porquê? Porque vemos crianças a beberem leite e a crescerem mais saudáveis graças ao leite. A experiência mostra isso. Como mostra, igualmente, como funciona o organismo humano assim como a composição do leite, provando, desse modo, a sua compatibilidade e o facto de o leite ser uma causa e o crescimento humano um efeito. Não é invenção nossa, não resulta da nossa imaginação, trata-se de um dado puramente empírico como afirmar que o Arco do Triunfo fica no cimo dos Campos Elíseos.
Mas vamos imaginar que, nos próximos séculos, existe uma mutação genética na espécie humana que fará com que o leite, em vez de contribuir para o crescimento humano, se tornará toxico. Não há seres humanos que são alérgicos à lactose? Que poderão morrer se beberem leite? Ora, o que acontece hoje com alguns seres humanos poderá vir a acontecer no futuro com todos os seres humanos. Então, nesse caso, o juízo "O leite contribui para o crescimento saudável do ser humano" não pode ser considerado universal e necessário. Na realidade empírica, o que ontem foi verdadeiro poderá ser falso amanhã. E o facto de ter existido até hoje uma relação entre o acto de beber leite e crescer, não significa que beber leite implique necessariamente crescer. Pode fazer crescer, como, na verdade, faz, como pode vir a não fazer crescer e até a matar. Do mesmo modo que a Ana, hoje, tem uma camisa azul, amanhã poderá ter uma camisa vermelha. Todos os factos são meramente contingentes, nada, na realidade factual, é absolutamente necessário. Se eu afirmar "Hoje está um dia de Sol", o meu juízo é verdadeiro. Mas o facto de ser verdadeiro hoje não significa que o seja amanhã. E é precisamente isto que se passa com o leite e o organismo humano e com tudo o que envolva um juízo científico. Eis, pois, a razão pela qual o filósofo escocês é considerado um céptico. Por um lado, os juízos metafísicos não passam de desvarios racionais manipulados pela imaginação. Por outro, os próprios juízos científicos, não têm o carácter de objectividade, universalidade e necessidade que nos querem fazer crer.
Por isso, o que fez o comentador da RTP perante um golo marcado por uma equipa alemã aos 43 minutos num estádio inglês, lembra o que faz a metafísica ou a ciência com o seu optmismo epistemológico: a ideia de que é possível chegar a verdades gerais a partir de factos atómicos e contingentes e cujo significado se esgota nessa mesma contingência.
Ah! O jogador "alemão" que marcou o tal golo é croata. O que marcou o segundo é holandês, a passe de um francês. Na verdade, só mesmo uma equipa alemã poderia regressar ao jogo depois de estar a perder 3-0

10 comentários:

estela disse...

gary lineker, por sorte inglês e jogador de futebol, disse um dia uma frase, desde então já muito repetida para estas bandas:

"um jogo de futebol dura 90 minutos e no fim ganham sempre os alemães".

hume - que (tenho a certeza) no carnaval se mascarava de aristóteles ;) - até pode ter muita razão.
mas não acrescenta nada ao mundo.

precisamos da metafísica como do ar que respiramos. da "certeza" palerma que o sol não vai caír esta noite e "nasce" amanhã outravez. daquele toque de raiva quando os alemães viram o jogo por dá cá aquela palha, e de deus, das qualidades segundárias, do amor e de todos os acidentes que o atlas consegue trazer às costas.

o mundo é um esférico a rolar no universo. e os do bayern de munique são uns chatos.

estela disse...

ps - excelente post.
desculpa não ter dito logo.

José Ricardo Costa disse...

Obrigadinho, Estela! Eu sabia que irias acusar o toque...

Provavelmente não acrescenta grande coisa o mundo. Provavelmente, o mundo é o que é, e não há mesmo muito para lhe acrescentar.
Sabes, eu não acho que os do Bayern sejam assim tão chatos. Ao contrário do que diz o grande metafísico inglês Gary Lineker, por vezes também perdem, mostrando assim à filosofia que o mundo, afinal de contas, sempre é o que é e não há grande coisa a dizer sobre ele. E até porque aquilo que não se pode dizer deve-se calar.
Beijinho,
JR

Ana Paula Sena disse...

Gostei muito desta introdução ao pensamento de David Hume.

Sempre me pareceu extraordinário o facto de toda uma civilização criar um mundo sustentado por quase nenhumas certezas. A fragilidade que há em nós... basta pensar que o Sol pode não nascer amanhã (hipótese ainda remota)) para todo o universo nos parecer algo do domínio do fantástico.

Grande David Hume, o escocês que acordou o alemão Kant do sono dogmático da razão.

Pena não apareçam comentadores desportivos como o JRC :) O futebol ficaria muito mais interessante.

José Ricardo Costa disse...

Ó Ana Paula! Então e o Gabriel Alves? E o Rui Santos? E o Luís Freitas Lobo? O futebol, em Portugal, é uma disciplina filosófica.
Bom fim-de-semana!
JR

Margarida disse...

..."aquilo que não se pode dizer deve-se calar" ?
Sempre?
Para sempre?
Pode ser subliminado? Substituído? Adiado? Interrompido? Aniquilado?
E porque não se pode dizer?
(I know I seem a two-year-old...)
:)

José Ricardo Costa disse...

Calma, Margarida, trata-se de um sentido epistemológico. Falemos, falemos à vontade. De todas as maneiras e feitios! Bom fds!
JR

Anónimo disse...

A propósito disto, e de como não é inteiramente verdade que uma equipa a perder por 3 consiga inverter o resultado porque um golo poderia ser marcado a qualquer altura, a posição relativamente à história sincrónica ou diacrónica. É verdade que cada momento é um momento, mas ignorando o tal nexo de causalidade que dá movimento à história ( o facto de terem estado a perder por 3 e darem a volta apesar de TUDO) equiparamo-nos ao sujeito que do filme analisa um 'frame' julgando que esse momento conta a história toda.

estela disse...

a causalidade é filha da consciência íntima do tempo que temos. nada no futebol é causal!

e há de facto filmes em que um momento conta tudo. filmes excelentes têm até vários momentos desses incluídos.

manufactura disse...

...parece que com o benfica a coisa não funciona bem assim...