06 abril, 2010

6-3?


No mítico jogo de 1993 em que o Benfica ganhou 6-3 ao Sporting, as estatísticas do jogo foram todas favoráveis à equipa de Alvalade. O Sporting fez 20 remates contra 11 do Benfica. Teve mais posse de bola. Marcou 8 cantos contra 1 do Benfica. E 7 livres contra 2. Mas o Benfica ganhou 6-3. Isto levou-me a pensar que, se há um Instituto Nacional de Estatística, deveria existir também um Instituto Nacional da Verdade.
Pois bem, o problema é que perante uma preocupação obsessiva em relação à verdade, a uma posse objectiva da verdade, podemos perder o sentido da realidade. Qual foi o resultado daquele jogo? 6-3. É o que fica para a história. Objectivamente, matematicamente. Uma espécie de ideia platónica que sintetiza a multiplicidade, a diversidade, as contradições daquele jogo de futebol. Aquele jogo será sempre o jogo dos 6-3. Nunca será o jogo dos 8 cantos contra 1, da bola que foi ao poste, dos dois falhanços incríveis do avançado do Sporting, daquela grande defesa do guarda-redes do Benfica que, tendo falhado, mudaria o rumo do jogo. É por isso que a verdade pode ser tão perigosa como a estatística, a obsessão pela verdade cegar tanto quanto a obsessão pelo concreto. Porque a realidade é o que é, com as suas imprecisões, os seus condicionamentos, as suas particularidades.
Um Instituto Nacional da Verdade seria um verdadeiro pesadelo. A história, aliás, está cheia de exemplos em que a verdade foi legislada, institucionalizada e tornada propriedade de classes iluminadas. Tanto pode ser o filósofo-rei, como o Partido ou um dogma papal.
É por isso que eu gosto cada vez mais de Aristóteles e cada vez menos de Platão.

3 comentários:

estela disse...

eu outravez.
e discordo.

eu, como em 93 já não estava em Lisboa, felizmente não tenho recordação nenhuma do 6 a 3. nem dos 8 cantos.

mas que parte do jogo é a verdade? a da estatística? enfim, os dados são contáveis, mas não são tudo. o que ficou para a história? como sabemos a história é muito, mas muito esquecida, come imenso queijo.
da verdade do jogo fazem parte os golos como tudo o resto. e como muitas vezes acontece em futebol: os golos não espelham a verdade do jogo. e a estatística também não.
Abschattungen, meu caro, meras sombras ;)

assim um instituto da verdade seria de facto um pesadelo porque a verdade é pesada, pesadíssima. mas nele não constariam nem somente o 6 a 3, nem os detalhes estatísticos todos. não se trata de ou um ou outro. e um jogo mítico não tem nada de mais verdadeiro que qualquer outro.
o que tornou o jogo mítico deve mesmo ter sido essa coisa benfiquista de acabar por ganhar sem saber como ;) ou essa coisa sportinguista de acabar sempre por ter azar, hehe.

resumindo: a verdade legislada não é a verdade toda. o filósofo-rei seria uma coisa estranha, mas seria talvez o melhor dos mundos - ainda que ninguém aguente um mundo assim. por isso é que temos que nos aguentar à bronca com o mundo que temos!

ps - aristóteles não seria benfiquista. é demasiado concreto para tal. seria um dragão :þ

JCM disse...

Deixemos o problema filosófico de lado, fiquemos apenas pelo jogo de futebol. Em primeiro lugar, os 6-3 não são uma realidade ideal nem é lícito estabelecer uma analogia entre o resultado e as ideias platónicas. O resultado é empírico e a posteriori, ao contrário das ideias platónicas, racionais e a priori.

Em segundo lugar, as estatísticas feitas sobre um jogo que decorreu são um fait-divers inútil. A única coisa que conta no futebol é a relação entre golos marcados e golos sofridos (isto sim, é análogo à ideia platónica, pois é a priori e representa a razão do jogo). Toda a história de cantos, posse de bola, etc. nada diz sobre a essência do jogo. São meros acidentes.

Ora, no caso do futebol, a asserção de que a verdade pode ser tão perigosa quanto a estatística é absolutamente incompreensível. Onde está o perigo em afirmar que nesse jogo de 1993 o Benfica fez a bola entrar 6 vezes na baliza do Sporting, enquanto este apenas conseguiu enfiá-la 3 vezes na do Benfica?

O problema é que sem o "a priori" o jogo não seria possível. No futebol o "a priori" é um produto da razão que determina a natureza e a finalidade do jogo.

Em termos futebolísticos, Platão instituiu as regras pelas quais o futebol se torna possível. Aristóteles preocupa-se em gerir os acidentes do jogo, entregue a racocínios de probabilidade, pois a estatística apenas nos dá probabilidades, não mais do que isso.

Quem joga futebol ou vive dele convém perceber o que é a verdade do jogo, não vá dar-se o caso de estar a lutar por obter mais cantos do que o adversário, e este apenas se preocupar com a lamentável ideia a priori de que o que conta no futebol é marcar golos, mais do que o adversário.

Por muito esforço que se faça, nem do futebol é possível expulsar Platão, quanto mais da política.

estela disse...

:)) JCM