25 março, 2010

RITMO RESPIRATÓRIO E PASSO ACERTADO


Gosto muito de muitos livros. Mas não gosto tanto de nenhum livro como gosto do D. Quixote. Porém, andei anos para o conseguir ler. Falhei várias tentativas, de várias edições. Cansava-me, parava, desistia. Um dia, enchi-me de coragem e retomei a leitura com a ideia fixa de não mais parar. E a coisa foi de tal modo que, entrando no coração do texto, passei a lê-la compulsivamente, só parando na última palavra. E a coisa foi de tal modo que, por vezes, tenho que lá regressar como aconteceu ainda há dias com a Novela do Curioso Impertinente, uma deliciosa parte que se pode ler autonomamente.
Quem consegue explicar bem o que se passa com este fenómeno é Umberto Eco, num opúsculo chamado "Porquê o Nome da Rosa?" :
"Entrar num romance é como dar um passeio pela montanha: é preciso adquirir um ritmo respiratório regular e acertar o passo, senão temos de parar rapidamente."

Ora cá está. Andar numa ampla planície não é o mesmo que andar numa alta montanha. Atravessar um regato num dia de Inverno, fazendo equilibrismo sobre as pedras, sem molharmos os pés, é diferente de passear descalço pela praia ao fim da tarde.
Com o D. Quixote consegui, finalmente, encontrar o passo certo e a respiração certa. É isso que um leitor deve procurar quando começa a ler o seu livro.

8 comentários:

Isabel disse...

Estou à espera do momento para subir a montanha de D. Quixote. Está à minha frente, na sala, olhando-me e esperando a minha visita.

José Ricardo Costa disse...

Cara Isabel, não sei qual a sua edição mas, principalmente numa obra como esta, recomendo uma boa edição. A minha é traduzia por José Bento e é excelente. E as notas explicativas são absolutamente imprescindíveis. Sem notas não irá entender grande parte da obra. Consta, o que não é de estranhar, que a tradução do Miguel Serras Pereira também é de qualidade. Boa leitura!
JR

Margaridaa disse...

Engraçado.
Também eu tenho os dois volumes do D. Quixote na sala,a espera de serem lidos, já comecei, já parei... e no entanto costumo ter um bom ritmo para a leitura.
(Quanto à tradução, não posso comparar, é versão francesa.)

José Ricardo Costa disse...

Margarida, se a tua edição não tiver um bom conjunto de notas explicativas, esquece. É um desperdício. O D. Quixote é uma mina de ouro cheia de referências históricas, culturais, filosóficas, religiosas. Sem as notas passas ao lado de tudo isso, é como se não tivesses lido a obra.
JR

Anónimo disse...

Eu ando assim há anos com o Dr. Fausto de Thomas Mann. Não está fácil.

Helena

JMV disse...

Acontece-me algo de parecido quando mudo de autor e de livro...demoro tempo a acertar o passo...é uma fase que dá trabalho.É quase como mudar de casa.
um abraço

Isabel disse...

A minha tem tradução e notas do Miguel Serras Pereira. Com ilustrações do S.Dali.

José Ricardo Costa disse...

Cara Isabel, espero bem que consiga entrar no ritmo e respiração da obra. Irá valer a pena. Boa leitura!

JR