12 março, 2010

RIDÍCULOS SÃO OS OUTROS

Quando o Zé Ricardo e eu começámos a namorar, escrevemos cartas de amor um ao outro. Ridículas, como mandam as regras. Como modernos que somos, as cartas foram, obviamente mails. Está assim explicada a razão pela qual eu não encontrei esta, que terá sido a segunda ou terceira que lhe escrevi, num maço atado com uma fita de veludo, mas sim perdida num ficheiro esquecido.
Compreenderá o benévolo leitor que as reticências entre parêntesis rectos correspondem a expressões ainda mais ridículas que, como compreenderá, me dispenso de expor aqui.
[…] não, não me peça para falar sobre isso. Eu sei pouco sobre o assunto. Sabe, a Agustina diz que Os Super-Homens é o seu pior livro porque ela não conhecia bem o universo aí retratado. Diz ela que, quando se escreve sobre o que não se conhece, tem-se mais pretensões do que razões. E se a Agustina diz é verdade.
[…] machismos ou feminismos foram peditórios para os quais nunca dei. Há uma natureza humana: uma das faces é a natureza feminina, outra a natureza masculina. Assunto encerrado.
[…] a civilização foi feita por homens. Homens que foram à guerra ou se meteram mar adentro, que pensaram, construíram e pintaram. As mulheres ficaram no recato do lar, resguardadas dos perigos e, se algumas ordenaram a velhos mestres que subissem as escadas do palácio e as deixassem participar do saber deles, outras prefiram bordar que deve ser tarefa bem mais fácil do que decorar declinações latinas ou verbos gregos. Já várias mulheres me chamaram leviana por falar assim. É evidente que eu nunca senti na pele esse estigma da condição feminina e só vislumbro vantagens nos meus saltos altos.
Bem, mas eu venho de uma família onde as mulheres sempre foram muito consideradas, os homens da minha infância respeitavam e amavam as mulheres com um amor resiliente e sólido, parco em palavras mas transparente nos gestos. Em casa dos meus pais, nunca se puseram tais questões na ordem doméstico-conjugal. Dir-me-á que, nestes exemplos familiares, pesava o facto de serem elas as donas das terras e dos montes. Pois sim.
Aceito que as minhas amigas tenham razão e que eu não faço a mínima ideia do que estou a falar.
Agora o poder já é todo um outro assunto. O poder pode ser um sussurro no ouvido do rei...lembre-se das filhas do rei Lear, lembre-se de que, na Eneida, é à rainha Amata que Eneias pede a mão da insípida Lavínia e não ao rei Latino. Alguns estudiosos encontram nesse gesto resquícios das antigas civilizações matriarcais mediterrânicas.
A nossa rainha Santa Isabel deixou escritos documentos e disposições que revelam um calculismo inimaginável numa santa. Aliás, quando D.Dinis se indispunha com o filho herdeiro e iniciavam guerras quase civis, era sempre a rainha quem intervinha e mandava os dois exércitos para casa.
Quando Beatrice d'Este, filha de Hercule d'Este e de Leonor de Aragão, abandonou a sua Ferrara natal para casar com Ludovico, il Moro, em Milão, o palácio Sforza transfigurou-se: a duquesa era linda, culta, tinha influências. Era o tempo em que Leonardo esculpia estátuas de gelo para os banquetes e engendrava maquinetas para distrair a corte, era o tempo em que os poetas ouviam as Musas em cada sopro de vento e os pintores descobriam uma cor nova todos os dias. O duque lutava contra ela com as armas que tinha: exibia despuduradamente amantes em cascata, algumas demasiado tempo para se tornarem ofensivas. Beatrice d'Este reinava no seu palácio de sábios e de artistas, tinha os filhos que a sua condição lhe impunha. Quando Lucrecia Crivelli arrastou com pompa e mora o estatuto de amante oficial, a duquesa abandonou os salões onde nunca mais entrou. Dessa solidão auto-imposta emanava um desprezo e um desdém tão grandes que anoiteceu no palácio dos Sforza: os pintores partiram, os poetas calaram-se. Leonardo, cobiçado pelos Médici, seguiu o caminho de Florença. Quem detinha o poder no ducado de Milão?
Como vê: o exercício do poder é terreno de areias movediças. Um homem que manda, faz aquilo que tem de fazer, uma mulher que manda, faz aquilo que deve fazer ou aquilo que lhe apetece fazer. O poder feminino tem portas secretas, alçapões que se abrem debaixo dos pés de quem passa e muitas outras coisas de que lhe não posso falar porque não se dão informações ao inimigo, mesmo que se tencione dormir com ele.
[…]

I.

4 comentários:

jrd disse...

Excelente!
Diz Aragon que a Mulher é o futuro do Homem,mas, se tivesse lido este texto, teria dito que ela foi o passado, é o presente e será o futuro...

estela disse...

:))

obrigada pela partilha.
no fundo foi como se estivesse a ler com a carta na mão e a fita serpenteantemente caída ao lado.

joão alfaro disse...

Adorei. Que texto mais belo não vou ler nos próximos tempos. Porque somos tão fechados quando pensamos de um modo e falamos de outro?

Margarida Fernandes disse...

Que bonitas cartas de amor...
Ridículas? Nada.

Bpm fim-de-semana