18 março, 2010

DOS CONCEITOS

Por força de uns cansaços demorados que me atingem e cuja etiologia teima em permanecer como que fechada em mão de bruxa maléfica, periodicamente tenho de repetir longos e demorados exames médicos.
Na semana passada, lá fui tratar de alguns a um centro onde se fazem ecografias, TAC's, Doppler's, ressonâncias magnéticas e outras coisas modernas. O estabelecimento é bom, é muito moderno, tudo é eficiência e simpatia.
Aproximei-me da recepção e entreguei o pedido de exames feito pela minha médica. Diz a jovem recepcionista:
- Ai! Esta Dr.ª manda sempre fazer tantos exames!
Pasmei e respondi:
- Sabe, a minha médica não tem uns óculos com raios X que lhe permitam ver, de imediato, de que sofre o paciente que tem na frente. Precisa de exames complementares que lhe permitam fazer um diagnóstico correcto. Além disso, é uma pessoa muito pragmática. Manda fazer o que considera que deve ser feito.
A mocinha, continuando sorridente e percebendo que tinha metido o pezinho na poça:
- Pois. Mas o meu médico nunca me manda exames e eu queria fazer exames. Ele diz que está tudo bem.
- Mas isso é uma questão que tem de colocar ao seu médico em vez de estar a fazer comentários sobre o procedimento da minha médica.
Um espanto! Mas o que é isto? Desde quando é que a recepcionista num centro de diagnóstico se dá ao luxo de opinar sobre o procedimento de um médico? Um país de gente doida é o que isto é.
Mas a rapariga devia estar bem treinada. Continuou toda ela sorrizinhos:
-Pronto, já está tudo. Agora, é só fazer nesta linha uma assinatura legível.
Parei de caneta no ar.
-Desculpe, a menina quer que eu assine ou quer que eu escreva o meu nome?
Olhou-me, sem compreender. Eu também não compreendia o conceito de assinatura legível. Uma assinatura é uma assinatura. Umas são legíveis, outras não.
- A minha assinatura, a que está no meu Cartão de Cidadão, é a minha assinatura oficial. É por ela que são aferidas todas as assinaturas que eu fizer. Eu acho que é legível. Abrevio o primeiro nome e um apelido que fica com uma maiúscula meio estilizada. Eu acho que se percebe o meu nome, se é esse o conceito de legibilidade que pretendem. Mas há pessoas que têm assinaturas ilegíveis. Numa circunstância destas, devem escrever o seu nome de forma legível? Então como provam que o que acabaram de escrever é a sua assinatura oficial?
Voltei a perguntar: a menina quer que eu assine ou quer eu escreva o meu nome?
Continuava sorridente e afável, pediu um instantinho, foi lá dentro e voltou com a resposta:
- A senhora pode assinar como está no Cartão de Cidadão.
E foi simpática, estaria tudo pronto no dia seguinte. Até aposto: ela diagnosticou -me, num ápice, uma patologia psiquiátrica grave.
Mas o assunto continua a preocupar-me. Como sei que muito ilustres causídicos passam, às vezes, por este blogue, agradecia que me elucidassem sobre este conceito de "assinatura legível." Antecipados agradecimentos.

7 comentários:

Margarida disse...

Ó minha querida Ivone (já percebi que se escrevo o 'nick' me deserda...), o que me delicio com as suas, digamos, belicosidades!
'Vinga-me'!!!!
As coisas inauditas com que nos confrontamos numa base diária que mereciam resposta à altura (com ou sem saltos) e que a mim estarrecem de tal forma que fico sem palavras...; essa sua capacidade de jogar ténis intelectual (a maior parte das vezes, consigo própria, por isso torna-se mais em Squash) , é algo que me vem crescentemente apaixonando.
Que magníficos exemplos!
Além de que a descrição é impagável...
Já está no meu Olimpo!!!!
:)))

Ega disse...

Cara Ivone,

Respondeu à recepcionista muito mais acertadamente do que muitos causídicos alguma vez responderiam.

Obviamente, a assinatura não pode ser confundida com os restantes dizeres do documento onde se assina. Entre esses dizeres, claro está, poderá encontrar-se (em alguns documentos é mesmo obrigatório) o nome da pessoa que assina o documento. E neste caso convém que os dizeres estejam grafados de forma legível. A pessoa que vai assinar tem de saber e compreender o que está a assinar. E só pode saber e compreender se puder ler o que lá está. Se não souber ler aí já é outra história.

Porém, quanto à assinatura, ela tem apenas de ser aquela que pertence ao assinante, seja ela um simples rabisco, ou uma cruz seguida de um círculo. Nada obriga a que seja legível. A assinatura é uma espécie de cunho ou marca pessoal. E o que importa é que seja essa assinatura que, de forma única e pessoal, normalmente usa (e que, aliás, terá de constar do seu documento de identificação) para expressar a sua vontade em aderir ao que consta no documento que assina.

Mas isto é daqueles coisas tão obvias que até é difícil estar aqui a explicar.

Anónimo disse...

Cara Ivone, na semana passada assinei um contrato. Foi devolvido porque a assinatura que efectuei não era "igual" à do BI. Fiz uma nova assinatura,"copiando" a do BI. Veio novamente devolvido porque: "...não estava conforme o BI". Rasguei o contrato; contactei um outro comercial e avisei: -Não me peça uma assinatura igual à do BI!
Cumprimentos. PR

bons temposhein disse...

Grave, grave, é que esta gente vota.
E ainda mais grave, é que não há exames médicos que identifiquem as razões do sentido que dão ao voto...

disse...

Estes teus diálogos parecem-me algo socráticos -- será por (finalmente) estar a ler a República?

Ivone Costa disse...

Pois é, meu muito estimado Ega, que isto é óbvio já eu julgava. Mas ainda agora estive a ver o recibo que trouxe comigo e lá consta por debaixo da linha onde deve ser aposta a assinatura : "assinatura legível". Na próxima vez, faço uma fita ainda pior. Digo que não posso escrever ali nada, porquanto me é pedido que escreva uma assinatura legível, coisa que código algum me pode obrigar a fazer. Vai ser engraçado.

Obrigada.

Ivone

helena disse...

E já tive problemas porque a minha assinatura não era igual à do Cartão do Cidadão. Repeti várias e foi complicado. Pensei para comigo: "Devo sofrer de dupla personalidade... ou coisa parecida!"