29 março, 2010

A OMOLETA INVISÍVEL

A iconografia utópica está cheia de figuras humanas, desde ditadores como Estaline, a operários, camponeses, soldados ou crianças com flores na mão, que olham para um horizonte que, pela expressão dos rostos e olhar hipnotizado, se adivinha perfeito.
Esperam, como diz Isaiah Berlin, por uma omeleta invisível. E como é que se cozinha uma omeleta invisível? Partindo ovos, claro, pois é assim que se fazem omeletas. Mas como a omeleta é invisível, continuam a partir-se ovos e mais ovos e mais ovos, sempre na esperança de ver surgir a omeleta. As piores tragédias do século XX poderão ser explicadas através do olhar destes homens em busca da tão ansiada omeleta invisível.

10 comentários:

JMV disse...

E são mesmo ovos,o que partem?

José Ricardo Costa disse...

Infelizmente, não...
Abraço,

JR

Anónimo disse...

Ok, o Sr. tem razão, mas... Existe sempre o mas. O Sr. é um intelectual e tem recursos teóricos de sobra para viver sem ilusões: sem pátria, sem deus e sem utopias (as tais omeletes). Talvez se aqueça apenas no fogo das amizades, como aconselhava Epicuro. Mas o que resta hoje a um operário? Fruto desse sistema educacional deficiente como leio nos seus relatos. O que resta a ele? Não tem mais nem as omeletes invisíveis. Esse sim está com os ponteiros totalmente parados,e com “os olhos baços de sono”.
Atenciosamente,
Cláudio

José Ricardo Costa disse...

Caro Cláudio, entendo a questão. Mas, afinal de contas, o que quer um operário? O grande ideal do operário é ganhar o euromilhões para deixar de ser operário ou ser menos operário do que os outros. Não tenhamos a ilusão de transformar o operário numa figura romântica. O operário atingirá o seu ideal supremo com uma casa com piscina, um bom carro na garagem e a carteira cheia para pagar uma lagosta aos amigos.

Cumprimentos,

JR

Anónimo disse...

Não pode, professor! No dia 24 de março, o Sr. ficou justamente indignado quando foi vítima de uma generalização (“E os professores que querem ser ‘excelentes pra se reformar mai cedo’”). Mas no dia 19 de julho, faz uma generalização igualmente grosseira contra a classe operária! Não seria melhor admitir que existem operários que ouvem Mahler e professores que jogam no “euromilhões”?

Atenciosamente,
Cláudio.

José Ricardo Costa disse...

Caro Cláudio,

Eu ainda não entendi bem onde pretende chegar? Está a defender a necessidade de ilusões, tipo "ópio do povo"?

Numa coisa tem certamente razão: a maior parte dos professores prefere jogar no euromilhões a ouvir Mahler. Duvido é que haja muitos operários a ouvir Mahler.

Já agora, não entendo a que indignação se refere no dia 24 de Março.

Cumprimentos,

JR

Anónimo disse...

Prezado Professor:
Suponhamos que eu seja um operário que ouve Mahler. É divertido que logo Mahler seja alçado a condição de definidor de status cultural... Mas não tergiversemos. Suponhamos que tenho um amigo professor que ganhou no “euromilhão” e em vez de me pagar um almoço de lagostas, me comprou um computador. Graças a esse aparelho pude ler Hayek e Poper e descobrir que o marxismo é uma pseudo-teoria e está no mesmo nível da astrologia ou do mesmerismo. Ótimo para o meu patrão, empresário do setor de armamentos e fornecedor da OTAN, que tem uma mansão em Cascais. Mas de que serve essa verdade para mim, que vivo em um conjunto habitacional na periferia de Lisboa, longe de Deus e dos homens? Felizmente, pude ler no blog de um professor de filosofia que existiu um filósofo chamado William James, que ensinou que a verdade de uma afirmação é definida não por sua concordância com a realidade, mas em termos dos usos práticos a que se presta. Posso agora sonhar com omeletes revolucionarias ou devo continuar acordado vendo o Cristiano Ronaldo destruir Ferraris?
Atenciosamente,
Cláudio.

José Ricardo Costa disse...

Caro Cláudio, se quer a minha resposta aqui vai então. Penso que as pessoas têm todo o direito de sonhar com omeletas revolucionárias ou ver o CR7 a destruir Ferraris. E não concordo consigo quando me coloca a questão de um modo disjuntivo, "ou...ou". Não haverá outras alternativas para além dessas. No fundo, cada um deve ser feliz à sua maneira, uns a ouvir Mahler, outros a ouvir o Tony Carreira. Há perfumes insuportáveis mas pessoas que gostam de os usar. Pois então que os usem. Só peço que não se aproximem muito de mim pois tenho um olfacto deveras sensível. Até porque eu gosto de ouvir Mahler e, por isso, agradeço que não haja muito barulho à minha volta.

Abraço,
JR

Anónimo disse...

Caramba Professor! Que horrível falta de humor. Cheguei a lhe escrever um bilhete malcriado, mas minha companheira vetou o envio. Argumentou, corretamente, que eu iria me privar do prazer da discordância... Está com a razão. Já andei lendo um comentário seu sobre Hitler e Veermer e já achei um jeito de discordar! Quanto ao cheiro e ao ruído, fique tranqüilo: existe um oceano Atlântico a nos separar. Tanto mar! Tanto mar!
Atenciosamente,
Cláudio.
PS: beba um vinho a nossa saúde. Aqui os vinhos portugueses saem muito caro, mas ai são baratos.

José Ricardo Costa disse...

Ó Cláudio, caramba digo eu. Eu estou a "divertir-me" imenso com a conversa e as minhas desculpas se fui mal interpretado. O que eu quis simplesmente dizer foi:
1. As pessoas são livres de procurarem a felicidade à sua maneira. A justiça, por exemplo, tem um âmbito político, público. A felicidade é pessoal, privada. Se um tipo qualquer for feliz, passando a maior parte do tempo encostado à parede da sala a fazer o pino, pois então que o seja.
2- Daí a necessidade sagrada de haver um território de privacidade, cada pessoa deve estar protegida daquilo que nos outros pode constituir uma ameaça à sua liberdade. Daí eu dizer que quem quer ouvir Mahler tem o direito de não ser incomodado pelos outros. Isto pode significar a existência de espaços sociais heterogéneos e exclusivos. Eu tenho o direito de frequentar um café onde leio o jornal onde não seja incomodado por pessoas que não sabem estar de acordo com o ambiente desse tipo de café. Se eu viver num prédio onde a vizinhança anda aos gritos e a esfaquearem-se e a vender droga e não me deixa ouvir música descansamente no sofá da sala, nesse caso, eu prefiro viver num outro prédio onde os meus vizinhos sejam como eu.
Voltando à questão da omoleta. Peço desculpa mas esqueci-me de escrever um ponto de interrogação nesta frase: "Não haverá outras alternativas para além dessas. No fundo, cada um deve ser feliz à sua maneira, uns a ouvir Mahler, outros a ouvir o Tony Carreira?".
Eu penso que o meu amigo é que tem uma visão pessimista da coisa. Ou seja, quando me faz essa pergunta, dá a entender que só a lugar para qualquer coisa de negativo, que só a alienação é possível. Eu acho que não. Não penso que a coisa esteja dividida entre a possibilidade de uma sociedade perfeita, ideal (a utopia) e a alienação, a infelicidade, a manipulação das massas. COnsidero os ideais muito perigosos e mais ainda a sua tentativa de aplicação ( A Rússia estalinista, a Alemanha nazi, o Terror de Robespierre, o Cambodja de Pol Pot ou a China de Mao. As nossas democracias, apesar de pouco empolgantes e com os problemas económicos que por vezes as ameaçam, continuam a ser, com as suas imperfeições e limitações, as melhores sociedade para viver.

Grande abraço para si e para a sua companheira (eu tinha desconfiado que seria brasileiro mas como falou em Lisboa, Cascais, euromilhões, CR7, e com o novo acordo ortográfico que "abrasileirou" o português de cá (ótimo), já é mais difícil identificar.

Beberei certamente à sua saúde mas terei muito em gosto em fazê-lo ao pé de si um dia que passe por cá!

Abraço!

JR